segunda-feira, 10 de março de 2014

Serão apenas números? Ou anda por aí muita gente a reclamar de barriga cheia?


Nota prévia: Também posso falar dos políticos, dos capitalistas, dos banqueiros, dos juízes, dos americanos, dos ucranianos, do futebol. Mas hoje não me apetece!

Neste domingo durante o almoço, ao contrário do que é habitual, pois quase sempre existe unanimidade e consenso nas nossas conversas, gerou-se uma pequena discussão contraditória, quando minha irmã me referiu, que eu estou sempre contra os professores, e agora também os polícias! E eu defendi que não estou contra os professores nem os polícias, o que eu digo é que estes profissionais, quando comparados com outras carreiras de serviço público (sem falar do sector privado, que aí a diferença é abismal e escandalosa), andam a protestar de “barriga cheia”.



Claro que podemos sempre partir do princípio de que todos os assalariados em Portugal estão mal pagos (espero que com esta crónica não ser comparado com as opiniões do belmiro!). Se for para discutir “sonhos, ou imaginários”, eu assino por baixo, e garanto que nem sou dos piores. Se for para falar de realidades, porque as coisas são o que são, então vamos a isso. Também não vale a pena entrar na discussão esteril de quem, de todos os servidores públicos, serão os de maior importância no seu papel social, porque também aqui, e se existem, é porque talvez todos sejam importantes.

Nem de propósito, hoje o Jornal Público (espero que não a mandado do belmiro), apresenta um estudo com o título, “Onde trabalhavam os 563,5 mil funcionários públicos em 2013”. Esse estudo não se resume a informar onde trabalham, vai mais longe e diz-nos: quantos são por carreira, e os seus vencimentos médios mensais.


Figura 1 - Trabalhadores por Carreira na Administração Pública

 Fonte: Jornal Público (Clicar sobre a imagem para ver melhor)


Assim como se pode ver aqui, no final de 2013 eram 563 500 o total de Funcionários Públicos em Portugal, menos cerca de 50 000 do que eram no final de 2011 (aproximadamente - 9%); 56% são mulheres e 44% são homens; 74% trabalham na Administração Central, 20% na Administração Local, e 6% na Administração Regional.

Na figura 1, podemos verificar que a Carreira com mais pessoas é a dos Docentes e Educadores de Infância (129 312) representam 23% de todos os Funcionários Públicos. Já as pessoas ligadas ao sector da Segurança: Militares, Polícias e GNR, o seu total são 75 492 pessoas, que representam 13%. O que quer dizer que, só estas Carreiras representam 36% dos Funcionários Públicos. Atenção que não estou a dizer se são muitos, ou se são poucos, a realidade mostra-nos que são mais de 200 000 mil. A restante análise deixo para quem a queira fazer.

Figura 2 - "Ganho Médio" por Carreira, em euros na Administração Pública

Fonte: Jornal Público


Por fim vamos à Figura 2, onde parece que me posso fundamentar para o que comecei por dizer no princípio deste artigo: existem possivelmente Carreiras, que quando comparando com outras, alguém anda a protestar de “barriga cheia” fazendo constar que são uns desgraçadinhos que nem ganham para a farda, que têm muitas dívidas, cantam o hino, apelam às armas, e, invade-se a Assembleia onde é suposto estarem aqueles que são eleitos e representantes do povo.

 Assim, este estudo diz-nos que, o “ordenado médio” na Polícia de Segurança Pública é de   1 770 euros, mais 150 euros do que por exemplo o de um Enfermeiro, e mais 300 euros do que um Técnico de Diagnóstico e Terapêutica (todos Técnicos Superiores); na GNR, o dito é (idêntico ao de um Técnico Superior ou de um Enfermeiro) 1 627 euros. Nas Forças Armadas o “ordenado médio” é de apenas 1 473 euros. Pergunto, à maioria dos portugueses:

- Estarão os nossos Polícias e GNR, assim tão mal pagos, comparando com os restantes portugueses, cujo salário médio não vai além dos 950 euros?

Em relação aos Docentes do Ensino Básico e Educadores de Infância, diz-nos este estudo que o seu “vencimento médio” é de 2 053 euros, em média mais 400 euros que os outros Técnicos Superiores da Administração Pública que não vão além dos 1 631 euros. Os nossos Professores ganham mais do dobro do “ordenado médio” de cada português que trabalha por conta de outrem. E se tivermos ainda em conta, que esta a Carreira é que mais Funcionários tem em Portugal, isto representa para o país um total de 3,5 mil milhões de euros/ano. Pergunta-se aos portugueses:

- Comparando com os restantes portugueses, e com os restantes Técnicos Superiores da Administração Pública, paga Portugal mal aos seus educadores?

Claro que poderemos sempre argumentar que sim. Todos os portugueses deveriam ganhar mais, que todos estamos mal pagos, que nos outros países, em média, ganham o dobro, que cada um tem que puxar para si, etc., etc. Mas mais uma vez a realidade é o que é, e não aquilo que cada um de nós sonhava que fosse.

Em Portugal cada um de nós, ou cada grupo profissional, ou cada corporação, acha-se sempre melhor que a outra. A nossa pouca humildade, nunca nos leva a questionarmo-nos quanto valemos de facto, ou qual o valor da nossa produção. Isto é um problema que nos acompanha desde o início da nacionalidade.

Por isso nada melhor que terminar, com um texto do Padre António Vieira, in 'Sermões', que já no século XVII, escrevia isto:

"UM DIA A GANÂNCIA EVAPORA.SE"

Em Portugal cada um Quer Tudo E quando os homens são de tal condição, que cada um quer tudo para si, com aquilo com que se pudera contentar a quatro, é força que fiquem descontentes três. O mesmo nos sucede. Nunca tantas mercês se fizeram em Portugal, como neste tempo; e são mais os queixosos, que os contentes. Porquê? Porque cada um quer tudo. Nos outros reinos com uma mercê ganha-se um homem; em Portugal com uma mercê, perdem-se muitos.

Se Cleofas fora português, mais se havia de ofender da a metade do pão que Cristo deu ao companheiro, do que se havia de obrigar da outra metade, que lhe deu a ele. Porque como cada um presume que se lhe deve tudo, qualquer cousa que se dá aos outros, cuida que se lhe rouba. Verdadeiramente, que não há mais dificultosa coroa que a dos reis de Portugal: por isto mais, do que por nenhum outro empenho.

(...) Em nenhuns reis do mundo se vê isto mais claramente que nos de Portugal. Conquistar a terra das três partes do mundo a nações estranhas, foi empresa que os reis de Portugal conseguiram muito fácil e muito felizmente; mas repartir três palmos de terra em Portugal aos vassalos com satisfação deles, foi impossível, que nenhum rei pôde acomodar, nem com facilidade, nem com felicidade jamais. Mais fácil era antigamente conquistar dez reinos na Índia, que repartir duas comendas em Portugal. Isto foi, e isto há-de ser sempre: e esta, na minha opinião, é a maior dificuldade que tem o governo do nosso reino.”

Em 400 anos nada mudou! Continua actual....

sexta-feira, 7 de março de 2014

Para o Luís no dia 7 de Março...


Tanto quanto me lembro, o dia 7 Março de 1965 amanheceu chuvoso, com uma daquelas chuvas miudinhas de molha parvos. Seriam por volta das 6 horas da manhã, e José Costa, depois de percorrer cerca de duas léguas entre o Pego Ferreiro e o Seiçal, na aba da serra de Marvão, batia à porta de Manuel Bugalhão. O motivo era relevante, já que desde o serão passado, a sua filha Maria, andava às voltas pela casa dizendo que estava com as “dores”. Às pancadas na porta de madeira, respondeu Manuel com um “qui é lá”, ou coisa que se pareça, ao que recebeu como resposta: é o compadre Zéi.

Não fez o Bugalhão qualquer movimento ou intento de sair da sua cama, pois tal, só estava previsto para uma hora mais tarde, quando tivesse que se levantar, beber o seu copo de café preto e a habitual fatia de pão com a tora de toucinho frito, e ir direito a casa do João Dias, para um dos últimos dias da “fega” de azeitona desse ano. A tarefa de abrir a porta, como de costume, estava reservada para a sua mulher Luísa, que para alguma coisa hão-de servir as mulheres, para além de nos parirem, e já agora outra série de coisas que não vêm agora ao caso.

Na minha cama de criança, no quarto ao lado, ouvi perfeitamente o recado de José Costa, que foi rápido, preciso e conciso: - Ó comadre, vinha buscá-la porque a Maria começou com “as dores”, e caso lhe desse jeito, vinha comigo, sempre pode ser preciso, porque não sabemos quanto tempo a coisa vai demorar. Tapei imediatamente a cabeça, para que a minha mãe pensasse que eu dormia, não fosse ela fazer-me levantar, logo de madrugada, para que a acompanhasse. Mas não, a função que a esperava para aquele dia não metia homens, quanto mais gaiatos, e o que a ouvi dizer para meu pai foi: - Tenho que ir com o compadre, a Maria está por horas. Quando te levantares, come, e dá o café ao gaiato, que eu não sei a que horas volto. E lá saiu apressada com o seu compadre, com uns farrapitos debaixo do braço, talvez um cueiro para a criança, que esperava que nascesse rija e valente, e que tudo corresse como deus havia programado.

Maria Joaquina, assim se chamava a filha de José Costa, embora este a tratasse sempre e só por Maria, havia-se ajuntado com o meu irmão Chico no Inverno de 1963, após este ter regressado de Angola onde andou dois anos na guerra. Foi num dia de “matança anual” do porco, com a família toda de volta do alguidar dos chouriços, que ele resolveu trazê-la do Pego Ferreiro para o Seiçal. Quando chegou a casa por volta das 10 horas da noite, disse para a minha mãe: - Ó mãe dá licenças que entrem dois? Ao que minha mãe respondeu, que se deixasse de brincadeiras, e se arrumasse a ajudar a encher os chouriços, que mais duas mãos não eram demais e ele tinha jeito para tudo. Mas eis que, surpreendentemente, a Maria, irrompeu pela casa, dizendo que quer a quisessem receber ou não, ela já ali estava, e seria ela mesma a ajudar na tarefa. E assim o disse, assim o fez, sentando-se junto das outras mulheres, mostrando ali os seus dotes de rapariga trabalhadora. O único reparo que recebeu foi da tia Júlia, que a repreendeu imediatamente: - Anda magana, vai ao menos lavar as mãos, que sabemos lá o que andaste para aí a fazer!

O fruto e consequências da alusão da tia Júlia não terão sido dessa noite, mas a coisa também não se fez esperar muito, já que, pouco mais de seis messes após a cena de encher os chouriços, Maria, haveria ela própria, de ficar cheia. E é por isso que, nessa madrugada de 7 de Março, um homem chamado José Costa, e uma mulher chamada Luísa Serra, caminharam na direcção do sítio chamado Pego Ferreiro, onde pelas 20 horas dessa noite, mais coisa menos coisa, o Luís, havia de ver pela primeira vez a luz da lua, quando sua avó materna Jacinta o levou à janela e o benzeu contra as bruxas e o quebranto...            

quinta-feira, 6 de março de 2014

Uma boa notícia para Marvão


De acordo com dados agora revelados pela Direcção Geral das Autarquias Locais (DGAL), no final de 2012, Marvão estava no lote das Câmaras Municipais do distrito de Portalegre com um endividamento líquido per capita a terceiros, considerado NULO. Isto é, não deve nada, com excepção dos empréstimos bancários.


Na Tabela 1, podemos verificar, que sem dívidas se encontram, para além de Marvão, mais 5 municípios: Elvas, Gavião, Arronches, P. de Sôr, C. Vide. Os 3 municípios em pior situação são Monforte (1.192 €/habitante), Portalegre (1.025€/habitante), e Crato (1.025 €/habitante).

Em valores totais o município de  Portalegre tinha dívidas de 27,4 milhões de euros; Nisa 5,5 milhões, e Monforte, Avis e Sousel de 4 milhões de euros cada. Estes valores são praticamente, e de grosso modo, os orçamentos anuais destes municípios. O que quer dizer, a exemplo do país, que estes municípios têm dividas que rondam os 100% das suas receitas anuais. Uma barbaridade, que não irá ser paga por esses munícipes, mas por todos nós. Quem são os responsáveis?

Ainda em relação a Marvão, convém ter em conta que, a situação poderia ser bem diferente caso Vítor Frutuoso (e o seu espírito santo de orelha) em 2011, tivessem levado pela frente o Projecto de construção de 37 Habitações Sociais, que representariam actualmente uma dívida do município que rondaria os 3 milhões de euros (se cada habitação ficasse por 75 mil euros (15 mil contos). Isto é, o Município de Marvão estava numa situação de endividamento como os outros. Felizmente que o Tribunal de Contas às vezes está atento.   

Os “ultra boys da arrifana”...

Felizmente que os meus antepassdos “serranos” saíram de Arrifana por volta do século XVII, senão os “ultra boys da arrifana” ainda se arriscavam a ter 2 membros!!!!

terça-feira, 4 de março de 2014

O Poder do cacete/O Poder do dedo...

Contava-me o meu pai na sua simplicidade de homem do povo, possivelmente por alguém a ele lhe ter contado, que no final do século XIX durante o período da monarquia constitucional, quando da disputa de eleições, cada cacique fazia-se acompanhar por um caceteiro que se colocava à saída das assembleias eleitorais. Como os boletins de voto eram facilmente inidentificáveis, quando o eleitor votava nos “regeneradores”, logo o caceteiro “progressista” entrava em acção, e logo que o eleitor saía à porta tinha que com ele ajustar contas; se pelo contrário, de um eleitor “progressista” se tratasse, era o caceteiro “regenerador” a fazer cumprir a função do seu cacete. E assim se praticava o poder democrático de então, com os desditosos eleitores a decidirem o sentido do seu voto à entrada das assembleias, em função da avaliação do poder físico de cada caceteiro bem como o tamanho da respectiva moca, para pouparem o corpinho à saída.

Passados cerca de 120 anos, as coisas não são muito diferentes em muitas situações da nossa indigente democracia. Só que agora, em vez do caceteiro e da moca, basta o “poder do dedo”: levantar ou não levantar!

Vem esta conversa toda, para retratar o comportamento dos Membros da Assembleia Municipal de Marvão do PSD. Durante os 10 anos em que fiz parte desse Órgão, sempre o PSD, através dos seus Membros, participou activamente nas Assembleias, defendendo ou criticando com propostas, consoante se estivesse no poder ou na oposição. Lembro aqui, os nomes de Carlos Sequeira, Fernando Bonito, Mena Antunes, Soares da Costa, Joaquim Ramilo, Mário Patrício, José Jorge Ribeiro, Isabel Silva, Joaquim Delgado, eu próprio, entre outros menos interventivos.

Desde que de lá saí em 2011, e estive presente praticamente em todas as Assembleias, em 3 anos (apesar de alguns membros terem mudado nas últimas eleições), que não se lhes ouviu uma palavra, uma qualquer proposta, uma participação nos debates, uma qualquer emissão de moção ou declaração de confiança, um ou outro pedido de esclarecimento, um pobre requerimento, uma qualquer resposta às críticas da oposição, uma defesa do executivo, etc. NADA, apenas e só:

- Levantam o Dedo, ou não levantam o Dedo!

Com este comportamento primitivo (tipo caceteiro do século XIX), ganham todas as votações. Mas o exercício democrático é paupérrimo. Alguém um dia formulou que “da discussão nasce a luz...”, mas para aqueles lados está tudo iluminado!

Convém no entanto dizer, que durante este período, realizaram-se 15 Assembleias Municipais, os Membros do PSD são uma média 12, em cada Sessão recebem cerca de 50 euros cada um. O que dá, ao longo destes 3 anos, um total de aproximadamente 10 000 euros. Na última Assembleia Municipal, os Membros do Partido Socialista, apresentaram uma proposta para que os Membros desta Assembleia prescindissem deste “prémios” de presença, e no futuro estas verbas fossem entregues às Associações de Solidariedade Social do concelho de Marvão.

Posta à votação a proposta, os Membros do PSD não levantaram o Dedo! Mas também não apresentaram qualquer justificação. Não precisam, o “poder do dedo” é invencível...
   

segunda-feira, 3 de março de 2014

Musicas da minha vida (11)


Santa apolónia arrotava magotes de gente do seu pobre ventre inchado, sujo e decadente, quando Amélia desceu da carruagem dura e pegajosa, com o coração danificado e a cabeça em polvorosa. Na mala o frasco de ´bien-etre´ mal vedado e, o caderno dos desabafos, todo ensopado. Amélia apresentava todos os sintomas de quem se dirige ao lado errado da noite...

Para trás ficaram uma mãe chorosa e um pai embriagado, o pequeno poço dos desejos todo envenenado, a nódoa do bagaço naquela farda republicana, que a queria levar para cama todos os fins-de-semana, e, o distinto patrão, daquela maldita fundição, a quem era muito mais difícil dizer, não! Amélia transportava todas as visões de quem se dirige ao lado errado da noite...

Amélia encontrou Toni numa velha leitaria, entre as “bolas de berlim” com creme e, o sol que arrefecia. Ele falou-lhe de um presente bom e de um futuro emocionante, e, escondeu-lhe tudo o que pudesse parecer decepcionante. Mais tarde, no quarto de pensão, chamou-lhe sua mulher, seria ele a orientar o negócio de aluguer. Toni tinha todas as qualidades, para ser um rei, no lado errado da noite...

Jonas está agarrado ao seu saxofone, a namorada deu-lhe com os pés pelo telefone, e ele encontrou inspiração numa notícia de jornal acerca de uma mulher que foi levada a tribunal por ter assassinado uma criança recém-nascida, e, o juiz, era um homem, que prezava muito a vida. E a pena foi agravada por tudo se ter passado no lado errado da noite...




sábado, 1 de março de 2014

Mais um perigoso liberal...



Octávio Teixeira: 

“Ou se desvaloriza a moeda ou se desvalorizam salários. Não há milagres!” (ler aqui)

Ai Octávio, Octávio, "tás" com uns patins não tarda....

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Coisas muito feias (3)


Nota prévia: Todos os documentos aqui referidos são públicos e qualquer pessoa os pode consultar.

Acabo de ler na Acta da última Reunião de Câmara Municipal de Marvão, realizada a 17 de Fevereiro de 2014, que o senhor Presidente da Câmara, quando questionado pelo senhor Vereador Carlos Castelinho sobre as noticias vinculadas na comunicação social sobre as buscas da Polícia Judiciária à CM de Marvão, prestou o seguinte esclarecimento:

“O Sr. Presidente prestou os devidos esclarecimentos, referindo que a intervenção se prendeu com a rectificação de uma ata que foi realizada de modo incorrecto pelo que levantou a suspeita de falsificação de documentos. O assunto em causa prendia-se com um contrato de concessão, durante o anterior mandato, para o Centro de Lazer da Portagem que acabou por ser adjudicado ao Sr. Hélder Pires, irmão do Sr. Vereador José Manuel Pires. O ato foi realizado de boa-fé e já tinham sido prestados esclarecimentos ao tribunal e as dúvidas do tribunal eram do conhecimento da Câmara vigente. Nesta intervenção da PJ alguns funcionários da câmara municipal foram ouvidos, alguns documentos recolhidos e computadores averiguados.”

Perante mais este “esclarecimento”, questiono-me, sobre qual a razão para que o senhor Presidente continue a não dizer a verdade aos marvanenses, nem aos seus Órgãos próprios, como é o caso da Câmara Municipal. Senão vejamos alguns factos:

1 – O senhor Presidente sabe perfeitamente que o Contrato de Concessão não foi adjudicado ao Sr. Hélder Pires, mas sim à Empresa Sabores do Norte Alentejano – Empreendimentos Turísticos, Ld.ª, como se pode ver neste estrato da Acta 9/2012, de Reunião de Câmara de 17/5/2012:

“CESSÃO DE EXPLORAÇÃO DO RESTAURANTE DO CENTRO DE LAZER DA PORTAGEM ----------------------------------------------------------------------------------------
Sobre este assunto foi presente a seguinte informação do Chefe de Divisão Administrativa: --------------------------------------------------------------------------------------
“Conforme despacho de V. Ex.ª datado 19 março do corrente ano, a D.ª Maria Marcelina Maroco Machado, foi notificada no mesmo dia para informar se estava interessada em assumir a cessão de exploração acima referida, tendo informado por correio eletrónico datado de 26, que não estava interessada. ------------------------
Dado que em 4.º lugar e ultimo se encontrava classificada a empresa Sabores do Norte Alentejano – Empreendimentos Turísticos, Ld.ª, com sede na Portagem, foi a mesma notificada através do oficio n.º 645 datado de 26 de março, para informar a Câmara Municipal, se estava interessada em assumir a referida cessão de exploração tendo a mesma informado que sim, caso o contrato tivesse a validade de dois anos, com pelo menos mais um de opção. --------------------------------------------------------------
Em face do exposto venho propor a V.Ex.ª que o assunto seja submetido a deliberação da Câmara Municipal.
Á consideração de V. Ex.ª.” -----------------------------------------------------------------------
Despacho do Sr. Presidente: “Visto. Concordo. À Câmara Municipal.” ------------------
A Câmara Municipal deliberou por maioria proceder à adjudicação da cessão de exploração à empresa Sabores do Norte Alentejano – Empreendimentos Turísticos, Ld.ª, com sede na Portagem, e solicitar-lhe os documentos para a celebração do respetivo contrato. ----------------------------------------------------------------------------------
Não participou na votação o Sr. Vereador, Dr. José Manuel Ramilo Pires, por fazer parte da empresa e estar impedido de acordo com o estabelecido na alínea a) do nº 1 do artigo 44º do CPA, tendo-se ausentado da sala eram 12h. Regressou à reunião eram 12h15m.”

2 – O senhor Presidente sabe (ou deveria saber) que esta Empresa não é do Sr. Hélder Pires, mas sim de uma sociedade em que o senhor Vereador José Manuel Pires é Gerente (por isso ele não pode participar ou votar (?) a decisão na Reunião de Câmara), em conjunto com o seu irmão e mãe. Esta situação é, e sempre foi, do conhecimento de todos os Órgãos Autárquicos, pois o senhor Vereador sempre informou, como se pode ver nos 2 Documentos que em baixo publico (Figura 1), um de 2009 e outro de 2013, onde se refere perfeitamente esta situação.

Figura 1 - Informação do Vereador sobre as Empresas de que era gerente em 2009 e 2013



3 – É de facto muito estranho que o senhor Presidente continue a afirmar que a Concessão foi feita a Hélder Pires, e também que o senhor Vereador José Manuel Pires não assuma que ele era Gerente dessa mesma Empresa com uma Quota de 25% (e pelos vistos não informou o seu Presidente). E quando tal se verifica, estas Empresas ficam impedidas de concorrer a Concursos dessa Instituição (quanto mais ganhá-los), de acordo com o Estatuto dos Eleitos Locais e pela Lei do Regime Jurídico de Incompatibilidades e Impedimentos dos Titulares de Cargos Políticos que estipula: 

"(...)as empresas cujo capital seja detido numa percentagem superior a 10%, por um titular de órgão de soberania ou titular de cargo político, ou por alto cargo público, estão impedidas de participar em concursos de fornecimento de bens ou serviços, no exercício de actividade de comércio ou indústria, em contratos com o Estado e demais pessoas colectivas públicas, conforme o estipulado no Regime Jurídico de Incompatibilidades e Impedimentos dos Titulares de Cargos Políticos e Altos Cargos Públicos, no nº 1 do artigo 8º." 

4 – O senhor presidente continua empenhado em fazer crer, que o que está em causa, são pequenas ”incorrecções” de uma Acta! Possivelmente, o problema é mesmo a ACTA, mas o seu conteúdo, não a sua redacção. Senhor Presidente há mais Leis para além do Código de Procedimento Administrativo!

5 – Entretanto, e como é público (todos os Órgãos Autárquicos ficaram a saber na última Assembleia Municipal), em 2013 o Executivo Camarário liderado por Vítor Frutuoso, voltou a cometer uma ilicitude idêntica, ao adjudicar por “administração directa” (por despacho da responsabilidade de poderes do Presidente), a Obra de Construção do Depósito de Abastecimento de Água do Vale de Ródão a outra Empresa do Vereador José Manuel Pires: A Buscanível Lda., como se pode ver na Figura 2. Será que aqui também foi uma “incorrecção de acta”? Ou um caso idêntico à de Concessão do Restaurante do Centro de Lazer, por desconhecimento completo da lei? E/ou falta de lealdade entre os membros do Executivo? 

 Figura 2- Relatório das Obras em Curso em Novembro de 2013

6 – Nisto tudo, e talvez a situação mais grave, é estar a tentar-se responsabilizar os Funcionários da Câmara Municipal de Marvão por esta situação, desviando a água do capote, e não se assumindo as responsabilidades próprias do Executivo que tomou as decisões. Se responsabilidades há dos Funcionários, elas são decorrentes da irresponsabilidade do Executivo por não providenciar uma assessoria jurídica adequada, e por não ter um Técnico dessa área. Sendo, certamente, a única Autarquia do país que não tem um Jurista (quem faz os pareceres jurídicos, é um mero “curioso administrativo” avençado).Em contrapartida prefere ter um Assessor para andar a fazer de "manageiro", a distribuir simpatia para angariação de votos.

7 – Quanto à Oposição política, o senhor Vereador Carlos Castelinho deveria ter-se informado e documentado mais a fundo sobre a situação, e deveria ter confrontado o Executivo com dados concretos, mas parece que o não fez. Se o fizesse, certamente, teria obtido outro esclarecimento, e a verdade estaria mais próxima. Esperemos que amanhã a Assembleia Municipal o faça.

Até lá resta-nos esperar pelo Processo da Justiça. Mas com o seu funcionamento, poderemos esperar sentados, ou talvez não....

A ver vamos. Como diz o cego!

Perguntas que incomodam...


Se o Estado Central reduz e retira do interior do país serviços de saúde, tribunais, finanças, etc., por que carga de água é que os habitantes destas zonas não hão-de poder ser atendidos nos hospitais de Santa Maria ou São João, num qualquer tribunal de Sintra ou Vila Nova de Gaia, ou num serviço de finanças de Setúbal ou Espinho? 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Concordâncias? E porque não, às vezes...


Eu sou um pronome, um pronome pessoal, sou a primeira pessoa do sujeito singular. Ele é um pronome, igualmente pessoal, e quer que eu me junte a ele numa relação plural.

Mas onde está o meu substantivo? E que verbos posso ambicionar? Chamem-me nomes, maus adjectivos, se é para pior, eu não vou mudar.

Mas eu não sou artigo indefinido, nem um colectivo, nem um numeral! Eu tenho nome, e para mim exijo mais concordância gramatical.

Sou um sujeito, procuro um verbo, e, um bom complemento directo! Quero frases afirmativas e não viver em voz passiva.

Somos sujeitos, queremos verbos, bons complementos directos! Queremos frases afirmativas, e, emoções superlativas...


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Alguma verdade sobre aposentações

De acordo com esta notícia 80% dos aposentados/reformados em Portugal têm uma reforma média de cerca de 360 euros/mês. Ainda de acordo com outros dados divulgados, apenas 13% desses mesmos aposentados auferem valores superiores a 1 300 euros.

Com todos os cortes que por aí se fala, eu que estou dentro dos 13%, com uma aposentação um pouco superior aos tais 1 300 euros /mês, recebi em 2013, em valor líquido anual, de mais 500 euros do que havia recebido em 2012. O que quer dizer que, para os outros 87% de aposentados, certamente, a recuperação percentual ainda foi superior à minha.

Não percebo assim, quem é que os partidos de esquerda e as organizações “para-sindicais” de reformados andam a defender. Os mais desfavorecidos não devem ser!

No extremo oposto, cerca de 5% dos aposentados portugueses estão as chamadas “reformas douradas” (superiores a 3 000/mês), e essas estão de facto a sofrer cortes brutais, às vezes superiores a 50% do seu valor. Mas será isto injusto? Serão estas as pessoas que se andam por aí a manifestar, defendidas pelos tais partidos do estado social com dinheiro emprestado?

Já agora, e segundo a mesma notícia, 56 destes aposentados, têm reformas superiores a 17 000 euros. Num país como este é uma barbaridade.

Que pensarão disto o ps, pcp e bloquistas, e as tais associações para-sindicais?

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

"Valsa dos Detectives"...


Tem medo do escuro, tal criança, sem futuro. É falso, velhaco, cobarde armado em duro. Vai pelo mundo guiado pela mão, até depois de morto dá uma volta no caixão. Treme e vacila nem na cama está seguro, teme que alguém o chame, geme, sofre de medo puro. 

Evita o olhar, dos mortais, que o rodeiam, esconde-se em mentiras que mesquinhas serpenteia. Vai pelo mundo guiado pela mão, até depois de morto dá uma volta no caixão. É só, paranóia, mania da perseguição, desconfia de todos resulta da sua traição, e, vai pelo mundo guiado pela mão, até depois de morto dá uma volta no caixão....


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Coisas muito feias (2)

Como se pode ver aqui em extracto de declarações de Vítor Frutuoso à Rádio Portalegre (17/2/2014), sobre buscas da PJ na CM de Marvão:

“O autarca explicou que na base desta investigação está “um lapso” do responsável pelos serviços administrativos do município que corrigiu “indevidamente” uma ata da reunião camarária.”

Ai estas questões de carácter dos líderes que nos governam! As responsabilidades nunca se delegam, assumem-se. Sobretudo nos momentos difíceis.

E o essencial do que está em causa mantém-se, e o sr. presidente não responde mais uma vez:

 - Porque é que o sr. vereador não podia votar o assunto da decisão tomada?

- A decisão tomada estava de acordo com as Leis vigentes?

- Porque é que 2 anos depois volta a repetir-se uma situação idêntica (que não é uma questão de Acta)?

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Ah e tal, sai um "prato" de promiscuidades...


Este país é mesmo um país que apenas dá importância a “processos”!

Então quando existe um “furto”, não existe sempre um gatuno e alguém que é a vítima! O que se deveria averiguar (discutir ou avaliar) nestes casos, não deveria ser o “objecto” de roubo, em vez de se estar preocupado se a coisa ocorreu de noite ou de dia? Ou se o queixoso fez bem ou mal a queixa?

Então, num acto concursal público em 2012, “alguém” pratica algo à margem da lei (de acordo com a Lei das Incompatibilidades) isto é, um bem que era público passou para a esfera da administração privada, em que um sujeito, simultaneamente, é dirigente na instituição pública (vereador) e gestor dessa coisa privada, e o que está em causa é uma mera formalidade de escrituração (acta)?

Lembremos ainda que os factos agora em causa, segundo o Jornal Público, sucederam no ano de 2012! Mas no final de 2013, os mesmos intervenientes, repetiram a mesma, e provável irregularidade, como se pode ver aqui. Apenas mudou o ramo: da restauração, passou-se para a construção civil.

O Presidente diz que não sabia que as Empresas eram do Vereador (porque terá então o vereador saído da Reunião de Câmara e não votado a decisão?). E o Vereador esqueceu-se que as Empresas eram dele, embora tenha entregue uma Declaração sobre tal nos órgãos próprios. E os Assessores? Esses andavam distraídos em campanha...

Siga a cegarrega que é a dança cá da terra / só não dança quem não quer / é encher a saca, chupar na teta da vaca / enquanto houver!



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

"Temos o direito de ser humilhados"

O que é que se podia esperar disto? Passaram 2 anos e...

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Esta é muita forte! Mas merece ser replicada...


Retirada daqui:

Uma descrição apressada das praxes por que passei
por António Manuel Venda

“Dei agora conta de que devo ser a única pessoa em Portugal que não escreveu sobre as praxes. Andei no ISCTE. Também apanhei com os filhos da puta logo à porta, no primeiro dia (eu ia do Algarve, de Monchique, acho que só conhecia vagamente a palavra praxe). Estavam dois tipos com uma rapariga que tinha pasta de dentes e creme de barbear. Achei estranho mas avancei para eles. Os dois tipos agarraram-me logo e a rapariga preparou-se para me encher o rosto e o cabelo com a pasta e o creme.

Concentrei-me apenas num dos que me agarravam e atirei-o ao chão, e nessa altura senti que tinha sido apanhado na cara nem sei já se pela pasta se pelo creme. Quando ia para dar um pontapé no focinho do filho da puta que estava no chão, o outro puxou-me para trás e ele entretanto levantou-se. Vi as coisas mal paradas para o meu lado, porque eram dois, havia a rapariga com as bisnagas e estava um terceiro a aproximar-se. Consegui libertar-me do que me agarrava e procurei na relva da entrada do ISCTE um pau, algum ramo de árvore, qualquer coisa que me ajudasse a equilibrar aquilo. Mas nada. Percebi então que o terceiro vinha tentar desapartar, embora pertencesse ao grupo dos filhos da puta. Lá disse umas coisas aos outros e entraram no edifício. Eu segui-os e procurei uma casa de banho. Estava envergonhadíssimo com aquelas merdas na cara, mas a certa altura vi alguns tipos cabisbaixos a caminharem pelos corredores com bigodes colgate e volumosas cabeleiras brancas.

Acabei por lavar a cara e quando saí nem passaram cinco minutos que não aparecesse mais um grupo de filhos da puta. Só tipos, desta vez e um com ar esquisito carregava as bisnagas. Mal os vi dirigirem-se a mim, apanhei um caixote do lixo e disse-lhes que ia haver ali merda. Não houve. Os filhos da puta passaram por mim sem fazerem um gesto ameaçador que fosse, mas um disse-me que eu ficava marcado. Pousei o caixote do lixo no chão, a conter-me para não lhe dar com ele nos cornos. Era o que me apetecia fazer. Partir os cornos do filho da puta que tinha dito que eu ficava marcado. Mas contive-me. E o dia passou, acho que só com uma aula e ainda por cima falsa, onde um palhaço qualquer a fazer de professor se fartou de recomendar bibliografia esquisita. Eu ainda cheguei a comprar um dos livros, antes de descobrir que a aula tinha sido falsa, para nos fazer de parvos. Não sei se mais alguém comprou.

Depois veio a parte pior, uma aula no auditório maior, teórica. Mas não era a aula. Era as praxes. Creio que foi um ou dois dias depois. Não tenho bem a certeza. Os alunos encheram o auditório. Acho que muitos sabiam que era para as praxes, mas eu, lá das serras do Algarve, pensei que era uma aula mesmo. Só percebi quando ao procurar um lugar numa das filas do meio me apareceu pela frente a tal rapariga da pasta de dentes e do creme de barbear e, sem que eu tivesse tempo de reagir, sacou um marcador verde do soutien (se é que usava e não o segurava entre as mamas) e fez-me um risco na cara. Apeteceu-me chamar-lhe cabra, mas não consegui porque nessa altura tinha a mente ocupada com a surpresa de estar na porcaria nas praxes e não numa aula teórica. O que poderia fazer? Era isso que eu pensava.

Fui-me sentar num lugar vago na fila em frente, e pelo caminho reparei, que a cabra já riscava outro rapaz depois de sacar o marcador, que escondeu logo a seguir. Pensei que deveria chegar a casa com as mamas todas verdes, porque parecia nem ter tampa no marcador. A cabra das mamas verdes. Podia haver quem gostasse. Pensei em Monchique, a minha terra. O Karaté das Estevas, se a encontrasse assim, de certeza que lhe chamava um figo. E o Renhaufe a mesma coisa. Já o Zé das Cabras talvez ficasse impressionado e fugisse dela. Não sei. Devo ter pensado em mais coisas.

Estava a escrever notas como estas num pequeno bloco, para tentar passar despercebido, mas de repente aquela merda começou. Entraram lá os que mandavam naquilo, inclusive os dois filhos da puta que me tinham recebido à porta no primeiro dia. Claro que fui um dos escolhidos pata ir fazer figura de parvo. Chamaram-me logo mais um grupo de cinco ou seis. Pensei que era por ter a marca na cara e que devia ter tentado tirá-la com cuspo. Mas não. Eles reconheciam-me mesmo sem a marca. Havia uns do grupo que não estavam marcados. Por isso lá fui. Ia decidido a não armar problemas no meio daquela assistência toda, onde percebi que estavam alguns professores, pela idade que aparentavam.

Aquilo era completamente estúpido e nalguns casos, para mim, humilhante. Mas calhou-me uma coisa fácil: ir para cima de uma cadeira, descalço (convém não ir para aquela merda com buracos nas meias), em frente a outro desgraçado nas mesmas condições e imitar um galo (fingir bater as asas com os braços e gritar có có ró có có). Fizemos os dois uma figura triste durante trinta segundos, mas não dava para desatar ali à porrada no meio do que parecia ser uma festa académica que até metia professores. Puta que os pariu também!

Regressei ao meu lugar, descalço, e só aí é que calcei as meias e as botas. Ainda havia quem se risse de mim. Decidi ignorar. Achei que já não me iam chatear mais. E a verdade é que não me chatearam. Mas os outros do grupo tiveram provas mesmo piores, pelo menos seriam piores para mim (por exemplo, ficar em cuecas, vestir uma saia transparente e dançar, o mais próximo que conseguissem do ballet. Parvoíces e mais parvoíces, com um auditório cheio a rir, inclusive os caloiros que não tinham sido escolhidos, a maioria, aliás.

Depois houve a eleição da miss caloira e nos dois primeiros lugares ficaram duas raparigas que depois descobri que calharam na minha turma. Essa parte não foi muito puxada para elas, não precisaram de se despir, mas para as avaliações tiveram de se pôr um bocado a jeito dos filhos da puta que iam conduzindo a festa. E foi assim, uma coisa soft, sem mortos nem feridos, mas eu não gostei.

E ainda me lembro dos filhos da puta da organização. Puta que os pariu! Devem gerir empresas por aí. O curso era de gestão. Ou estão desempregados. Ou emigraram. Ou algum já morreu. Eu sei lá..., Nunca gostei de merdas daquelas. Mas depois, com o passar dos anos, comecei a ver merdas piores, bem piores. E a saber de mortes. Tenho de reconhecer que aquilo da pasta de dentes e do creme de barbear se calhar nem merecia que se atirasse com um tipo ao chão. Mas se o tempo voltasse para trás eu agora ia esforçar-me mais para acertar mesmo com um pontapé no focinho do filho da puta que atirei ao chão. Foi uma semana daquela merda.

Mais tarde colegas meus, de Lisboa, disseram-me que já sabiam daquilo e que por isso não tinham aparecido nas aulas na primeira semana. Eu sabia lá... Eu tinha chegado de Monchique. Sabia tanto de praxes como o Karaté das Estevas, o tal que não haveria de deitar fora uma a cabra das mamas verdes. Por isso lá andei a semana inteira, a defender-me quando achava que era demais (bigodes de pasta de dentes, f***-se, nem que fosse preciso haver porrada...). Outras coisas deixei.

Outra cabra pintou-me a cara com giz. Andava sempre de giz na mão e acho que não usava soutien (pelo menos não tinha mamas). Era tão feia, tão feia mas mesmo tão feia que eu fiquei feito parvo a olhar para ela a tentar perceber se usava uma máscara ou se era mesmo assim. E entretanto ela pintou-me a cara de branco. Como tinha pintado tantos por ali, nem me preocupei em ir logo lavar a cara. Fui daí a bocado, antes de regressar a casa. A cabra feia parecia impressionar os caloiros. Deixavam-se pintar, de olhos fixados nela, incrédulos com o que viam. Cheguei a pensar que era uma bruxa, mas depois acabei por vê-la andar por lá com o saco dos livros e dos cadernos.

As raparigas das praxes eram quase todas feias, mas aquela distinguia-se. Já os tipos, o que os distinguia, era a tendência para a ordinarice e para manifestarem uma certa superioridade, e também o facto de andarem em grupo, não se desse o caso de terem de levar nos cornos. Terminou tudo ao fim de uma semana. Com mais uma aula teórica inventada no auditório maior. Aos poucos os caloiros tinham perdido o medo daquilo e já estavam por tudo.

O auditório encheu outra vez. E os mesmos tipos das praxes lá apareceram a conduzir a festa. A cabra das mamas verdes, dessa vez, nem a vi. A bruxa do giz branco a mesma coisa. Eu tinha-as posto as duas a caminho de Monchique numa das minhas histórias, a das mamas verdes para ser apanhada pelo Karaté das Estevas, a sem mamas para ficar a cargo do Renhaufe, ou talvez do Jacaréu, ou na volta para fazer o jeito ao Sapo dos Montes Claros. Se calhar foi por isso que não as vi, ou que não reparei nelas. Estavam na história e estavam muito bem. E a julgar pelo que eu sabia do Karaté das Estevas, do Renhaufe, do Jacaréu e do Sapo dos Montes Claros estavam bem fo*****. Aquelas duas cabras...

Fui-me sentar numa das últimas filas do auditório. Pensei que estaria mais a salvo do que pudesse acontecer. Mas a festa, afinal, era diferente. Os tipos queriam dar-nos uma espécie de lição de participação cívica, umas tretas, política, sei lá o que mais. Já se entrava na fase da seriedade. Já devíamos estar integrados na cultura académica. Pelo menos foi o que pensei que os filhos da puta pensavam. Senti-me tranquilo. Larguei o bloco onde escrevia e tomei atenção. O que seria que tinham preparado?

Muitos como eu fariam esta pergunta. Que teve respostas nem cinco minutos depois. Um dos filhos da puta, que usava um bigodinho parvo à Hitler só que castanho mais baixo e mais largo (enfim, com tantas diferenças nem seria um bigode à Hitler, mas também não era nenhum bigode à Clark Gable...), esse tipo apresentou um orador. Era um colega nosso, que estava lá matriculado havia já algum tempo mas que ao que percebi ainda se mantinha no primeiro ano. Foi a única vez que o vi lá.

Apresentou-o como um promissor líder político. Isto vai para trinta anos. Era de uma juventude de um partido, a socialista. Nada retive do que nos disse durante já não sei quanto tempo. Foi apresentado como António José Seguro. Para mim foi como se tivessem dito que era o Manuel Francisco da Silva. Ou o Karaté dos Montes Claros. Ou o Jacaréu Renhaufe das Estevas. Não o conhecia de lado nenhum. Nem fiquei a conhecer. Mais tarde é que ouvi falar dele, cada vez mais!”

Ah ganda Tonho, quem escreve assim não é gago. Eu, no seu lugar, faria o mesmo.

Ver, ouvir, e..., refletir


sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Ó Crato, assim não chegamos a alter (do chão)...

Consta, como se pode ler aqui, que a reunião (a reboque) que o ministro teve com as “poderosas” associações de estudantes do ensino superior, acabou com este “em cima da mesa, de boxers e coberto de farinha”; e com os ditos estudantes associativos a entoar os cânticos do costume: «E se o Craaaaaato quer ser cá da malta, tem que beber este copo até ao fim, até ao fim...».

Certamente, e devido a tão forte “argumentação” apresentada e discutida, o ministro, no final apenas invocou o direito dos alunos a resistirem às praxes
Sim, sim, sr. ministro, não duvide que esse é o caminho, espere sentado...

Entretanto deixo aqui 2 exemplos de hipóteses que talvez resolvessem a coisa de vez. Mas isto sou eu a pensar:

Hipótese A:

Em 1727, D. João V determinou que face a abusos idênticos "todo e qualquer estudante que por obra ou palavra ofender a outro com o pretexto de novato, ainda que seja levemente, lhe sejam riscados os cursos". Sigam o exemplo do Magnânimo e decretem desde já medida semelhante. Vão ver como estes abusos acabam num instante

Hipótese Alternativa:

Cortem-se os subsídios às associações académicas das universidades que permitam as praxes. A ver se não assumiam logo responsabilidades, em vez de dizerem que não têm nada a ver com as comissões de praxes.

Nota: Já agora, alguém me explica com é possível o “dux” de Coimbra, José Luís Jesus, ter 24 matrículas na universidade? Numa universidade pública a gastar impostos dos contribuintes? Que ensino é este?...


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Se..., se..., se....


Se Sebastião cá voltasse, se a moleza se cansasse, se o Eusébio ainda jogasse, ai que fintas que ele faria um dia...

Se o imposto não subisse, se o emprego não fugisse, se o presidente sorrisse, outro galo cantaria um dia:

E se cá nevasse? Fazia-se cá ski...

Há sempre um "se" no caminho, que me deixa as mãos tão presas, se eu cortasse o "se" daninho? Talvez me livrasse das incertezas...


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Talvez o mais alto cargo de um marvanense!

Como se pode ler aqui, Vítor Caldeira, acaba, recentemente, de ser reeleito para um 3º mandato de Presidente do Tribunal de Contas Europeu, sendo a primeira vez que alguém é eleito para 3 mandatos nesta Instituição.

Vítor Caldeira, pelo seu percurso de vida e profissional, deverá ser digno da admiração de todos os marvanenses. Não é todos os dias que Marvão vê um dos seus “filhos” em tão alto cargo na Europa e no mundo. Eu por mim não esqueço, e quer neste espaço, quer no Fórum Marvão, é a terceira ou quarta vez que o lembro.

Acho que já era tempo da Autarquia de Marvão homenagear Vítor Caldeira. Aqui fica o desafio para que num dos próximos “dias do concelho” seja feita essa elementar justiça.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O mundo dos outros....


Um dos mais belos textos que li ultimamente, e por isso não posso deixar de o partilhar com os meus amigos, em particular, aqueles que agora têm filhos pequenos. Deveria servir para todos reflectirmos. Primeiro individualmente, e depois em grupo.

"Um dia isto tinha que acontecer, por Mia Couto

Um dia isto tinha que acontecer. Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida. Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações. A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor. Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1.º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.

Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego..., A vaquinha emagreceu, feneceu, secou. Foi então que os pais ficaram à rasca. Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado. Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais. São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos quaisquer coisa phones ou pads, sempre de última geração.

São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!

A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas. Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados. Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.

Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. 

Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere. Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.

Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras. Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável. Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada. Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração? Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos! Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).

Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja! que chatice! são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida. E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!

Novos e velhos, todos estamos à rasca. 

Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens. Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles. Haverá mais triste prova do nosso falhanço?


(Mia Couto)"

domingo, 26 de janeiro de 2014

Aos duxs e afins deste país...


Depois do último Post que aqui publiquei, onde nunca me referi, particularmente, a uns tais “de duxs”, mas antes, procurei criticar, no geral, as praxes absurdas que hoje vejo por aí, os riscos que a todos níveis comportam: físicos, mas sobretudo psicológicos...; alguns amigos, e alguns artigos que li, imediatamente, acharam que eu estava a incriminar um tal de “dux joão miguel”, e que me estaria a precipitar: que eu não entendia nada do fenómeno, que lá e tal coitado do moço, que é muito bom rapaz, que até ele podia ter morrido, sofredor ele que também é uma vítima, que eram todos maiores, e, logo responsáveis, etc., etc., o trivial em Portugal: desculpar os réus e culpabilizar as vítimas.

Hoje resolvi de facto dirigir-me a esse tal “de dux joão miguel” (e outros energúmenos que andam por aí a formatar mentes) não através dos valores e princípios de uma sociedade de direito e de bom senso dos seus 900 anos de idade, mas através, ao que parece, da filosofia e doutrina que suportam esse tipo de rituais pré-históricos. É com base nesses princípios, que te questiono a ti “dux joão miguel” (e todos os outros “duxs” de meia tigela que andam por aí), que depois do que aconteceu, (parece que hoje já não existem dúvidas que se tratava de um episódio de praxe) que podes ter jeito para tudo “ dux joão miguel”, mas para DUX, tu jamais te julgues isso, senão vejamos:

- Que raio de “dux” és tu, que sais com o teu grupo para uma missão, morrem todos, e tu salvas a pele?

- Que raio de “dux” és tu, que após o que se passou te encerras em casa, como rato num buraco, e dizes que estás traumatizado com a cena, isso é de um “Dux”?

- Que raio de “dux” és tu, que nem ao menos és capaz de já ter enfrentado os familiares das pessoas que lideravas, e explicar-lhes o que se passou?

- Que raio de “dux” és tu que vens agora dizer que só falas no lugar e nas instâncias certas! Então tu achas que os familiares das pessoas que lideravas não deveriam ser as primeiras a informar? Quais são os teus valores “dux joão miguel”?

Poder-te-ia fazer mais mil perguntas “dux joão miguel”, bem como a todos os outros “duxezinhos” que andam e vão continuar por aí a fazer as suas graçolas (porque têm público e a coisa vende-se, tal como os Romanos vendiam o Circo, ou a Inquisição as fogueiras) mas penso não valer a pena. Contrariamente ao que dizem alguns amigos meus, esta boa sociedade portuguesa judaico-cristã já te absolveu e desculpabilizou, como desculpabilizou a Inquisição, a Pide, e outras que tais: tu afinal, não passas de uma vítima.

Mas para mim, podes até ter jeito para tudo (olha, por exemplo, um lugar de assessor num qualquer gabinete ministerial a ganhar 4 000 euros/mês, não eras o primeiro, a lusófona e a católica estão fartas de meter lá “especialistas” da tua idade, e das sociedades secretas em que navegas) mas DUX? Bem isso, digo-te mais uma vez, tu nunca serás. Só por nomeação, ou por chegares a velho.

Haja juízo...

Mais um bom texto Aqui.   , ou esta aqui que me enviou o Luís Bugalhão.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O mundo dos outros...

Não sei se o texto que aqui reproduzo se aplica ao caso, ou seja a morte de 6 jovens na flor da idade, ainda nos faltam alguns dados. Mas o que sei, é que tenho observado coisas idênticas, inclusivamente, na minha cidade. Revolta-me e enoja-me o que vejo nas praxes de hoje, e sempre que passo por aqueles idiotas (os organizadores), só a muito custo me reprimo, e não lhes dou um grande pontapé no cu, que é o que eles merecem. Mas acho que da próxima vez não hesitarei.

Não são apenas os idiotas organizadores os responsáveis pelas vergonhas que se vêem todos os princípios de ano em todas as escolas. Co-responsáveis são, também, os Conselhos Directivos, Gestão das Escolas e as Autoridades deste país, que permitem estas autênticas cretinices.

Fui militar, Oficial de Cavalaria, fui praxado no Curso, mas sempre com respeito pela integridade física e psicológica, sem as palermices que vejo por aí. Nenhum "dux" ali se atreveria a perder ou ultrajar um camarada. Quantos jovens terão ainda que ser sacrificados para acabarem com esta merda? Atenção, moro em Portalegre, e da próxima vez que vos veja por aí, não me vou calar. Vão praxar a puta que vos pariu...

O texto que se segue foi retirado daqui, mas gostava de ter sido eu a escreve-lo

“Carta aberta a um Dux”


“Dux:

Ando aqui com esta merda entalada há já algum tempo. A ouvir as diferentes versões, a pensar nas dúvidas e a pôr-me no lugar das pessoas. Tento pôr-me no lugar dos pais dos teus colegas que morreram. Mas não quero. É um lugar que não quero nem imaginar. É um lugar que imagino ser escuro e vazio. Um vazio que nunca mais será preenchido. Nunca mais, Dux. Sabes o que é isso? Sabes o que é "nunca mais"?

A história que te recusas a contar cheira cada vez mais a merda, Dux. Primeiro não falavas porque estavas traumatizado e em choque por perderes os teus colegas. Até acreditei que estivesses. Agora parece que tens amnésia selectiva. É uma amnésia conveniente, Dux. Curiosamente, uma amnésia rara resultante de uma lesão cerebral de uma zona específica do cérebro. Sabias Dux? Se calhar não sabias. Resulta normalmente de um traumatismo crânio-encefálico. Portanto Dux, deves ter levado uma granda mocada na cabeça. Ou então andas a ver se isto passa. Mas isto não é uma simples dor de cabeça, Dux. Isto não vai lá com o tempo nem com uma aspirina. Já passou mais de 1 mês. Continuas calado. Mas os pais dos teus colegas têm todo o tempo do mundo para saber a verdade, Dux. E vão esperar e lutar e espremer e gritar até saberem. Porque tu não tens filhos, Dux. Não sabes do que um pai ou uma mãe é capaz de fazer por um filho. Até onde são capazes de ir. Até quando são capazes de esperar.

Vocês, Dux... Vocês e os vossos ridículos pactos de silêncio. Vocês e as vossas praxes da treta. Vocês e a mania que são uns mauzões. Que preparam as pessoas para a vida e para a realidade à base da humilhação, da violência e da tirania. Vou te ensinar uma coisa, Dux. Que se calhar já vai tarde. Mas o que prepara as pessoas para a vida é o amor, a fraternidade, a solidariedade e o civismo. O respeito. A dignidade humana e a auto-estima. Isso é que prepara as pessoas para a vida, Dux. Não é a destruí-las, Dux. É ao contrário. É a reforçá-las.

Transtorna-me saber que 6 colegas teus morreram, Dux. Também te deve transtornar a ti. Acredito. Mas devias ter pensado nisso antes. Tu que és o manda-chuva, e eles também, que possivelmente se deixaram ir na conversa. Tinham idade para saber mais. Meco à noite, no inverno, na maior ondulação dos últimos anos, com alerta vermelho para a costa portuguesa? Achavam mesmo que era sítio para se brincar às praxes, Dux? Ou para preparar as pessoas para a vida? Vocês são navy seals, Dux? Estavam a preparar-se para alguma missão na Síria? Enfim. Agora sê homenzinho, Dux. E fala. Vá. És tão dux para umas coisas e agora encolhes-te como um rato. Sabes o que significa dux, Dux? Significa líder em latim. Foste um líder, Dux, foste? Líderes não humilham colegas. Líderes não "empurram" colegas para a morte. Líderes lideram por exemplo. Dão o peito e a cara pelos colegas. Isso é um líder, Dux.

Não sei o que isto vai dar, Dux. Não sei até que ponto vai a tua responsabilidade nesta história toda. Mas a forma como a justiça actua neste país pequenino não faz vislumbrar grande justiça. És capaz de te safar de qualquer responsabilidade, qualquer que ela seja. Espero enganar-me. Vamos ver. O que eu sei é que os pais que perderam os filhos precisam de saber o que aconteceu. Precisam mesmo, Dux. É um direito que eles têm. É uma vontade que eles precisam. Negá-los disso, para mim já é um crime, Dux. Um crime contra a humanidade. Uma violação dos direitos humanos fundamentais. Só por isso Dux, já devias ser responsabilizado. É tortura, Dux. E a tortura é crime.

Sabes, quero-me lembrar de ti para o resto da vida, Dux. Sabes porquê? Porque não quero que o meu filho cresça e se torne num dux. Quero que ele seja o oposto de ti. Quero que ele seja um líder e não um dux. Consegues pereceber o que digo, Dux? Quero que ele respeite todos e todas. Que ele lidere por exemplo. Que ele não humilhe ninguém. Que seja responsável. Que se chegue à frente sempre que tenha que assumir responsabilidades. Que seja corajoso e não um rato nem um cobardezinho. Que seja prudente e inteligente. E quero-me lembrar também dos teus colegas que morreram. Porque não quero que o meu filho se deixe "mandar" e humilhar por duxezinhos como tu.

Não quero que ele se acobarde nem se encolha perante nenhum duxezinho. Quero que ele saiba dizer "não" quando "não" é a resposta certa. Quando "não" pode salvar a sua dignidade, o seu orgulho ou até a sua vida. Quero que ele saiba dizer "basta" de cabeça erguida e peito cheio perante um duxezinho, um patrãozinho, um governozinho ou qualquer tirano mandão e inseguro que lhe apareça à frente. É isso que eu quero, Dux. Quem o vai preparar para a vida sou eu e a mãe dele, Dux. Não é nenhum dux nem nehuma comissão de praxes. Sabes porquê, Dux? Porque eu não quero um dia estar à espera de respostas de um cobarde com amnésia selectiva. Não quero nunca sentir o vazio dos pais dos teus colegas. Porque quero abraçar o meu filho todos os dias da minha vida até eu morrer, Dux. Percebeste?

 Até EU morrer. EU, Dux. Não ele...”