sábado, 22 de fevereiro de 2014

Concordâncias? E porque não, às vezes...


Eu sou um pronome, um pronome pessoal, sou a primeira pessoa do sujeito singular. Ele é um pronome, igualmente pessoal, e quer que eu me junte a ele numa relação plural.

Mas onde está o meu substantivo? E que verbos posso ambicionar? Chamem-me nomes, maus adjectivos, se é para pior, eu não vou mudar.

Mas eu não sou artigo indefinido, nem um colectivo, nem um numeral! Eu tenho nome, e para mim exijo mais concordância gramatical.

Sou um sujeito, procuro um verbo, e, um bom complemento directo! Quero frases afirmativas e não viver em voz passiva.

Somos sujeitos, queremos verbos, bons complementos directos! Queremos frases afirmativas, e, emoções superlativas...


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Alguma verdade sobre aposentações

De acordo com esta notícia 80% dos aposentados/reformados em Portugal têm uma reforma média de cerca de 360 euros/mês. Ainda de acordo com outros dados divulgados, apenas 13% desses mesmos aposentados auferem valores superiores a 1 300 euros.

Com todos os cortes que por aí se fala, eu que estou dentro dos 13%, com uma aposentação um pouco superior aos tais 1 300 euros /mês, recebi em 2013, em valor líquido anual, de mais 500 euros do que havia recebido em 2012. O que quer dizer que, para os outros 87% de aposentados, certamente, a recuperação percentual ainda foi superior à minha.

Não percebo assim, quem é que os partidos de esquerda e as organizações “para-sindicais” de reformados andam a defender. Os mais desfavorecidos não devem ser!

No extremo oposto, cerca de 5% dos aposentados portugueses estão as chamadas “reformas douradas” (superiores a 3 000/mês), e essas estão de facto a sofrer cortes brutais, às vezes superiores a 50% do seu valor. Mas será isto injusto? Serão estas as pessoas que se andam por aí a manifestar, defendidas pelos tais partidos do estado social com dinheiro emprestado?

Já agora, e segundo a mesma notícia, 56 destes aposentados, têm reformas superiores a 17 000 euros. Num país como este é uma barbaridade.

Que pensarão disto o ps, pcp e bloquistas, e as tais associações para-sindicais?

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

"Valsa dos Detectives"...


Tem medo do escuro, tal criança, sem futuro. É falso, velhaco, cobarde armado em duro. Vai pelo mundo guiado pela mão, até depois de morto dá uma volta no caixão. Treme e vacila nem na cama está seguro, teme que alguém o chame, geme, sofre de medo puro. 

Evita o olhar, dos mortais, que o rodeiam, esconde-se em mentiras que mesquinhas serpenteia. Vai pelo mundo guiado pela mão, até depois de morto dá uma volta no caixão. É só, paranóia, mania da perseguição, desconfia de todos resulta da sua traição, e, vai pelo mundo guiado pela mão, até depois de morto dá uma volta no caixão....


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Coisas muito feias (2)

Como se pode ver aqui em extracto de declarações de Vítor Frutuoso à Rádio Portalegre (17/2/2014), sobre buscas da PJ na CM de Marvão:

“O autarca explicou que na base desta investigação está “um lapso” do responsável pelos serviços administrativos do município que corrigiu “indevidamente” uma ata da reunião camarária.”

Ai estas questões de carácter dos líderes que nos governam! As responsabilidades nunca se delegam, assumem-se. Sobretudo nos momentos difíceis.

E o essencial do que está em causa mantém-se, e o sr. presidente não responde mais uma vez:

 - Porque é que o sr. vereador não podia votar o assunto da decisão tomada?

- A decisão tomada estava de acordo com as Leis vigentes?

- Porque é que 2 anos depois volta a repetir-se uma situação idêntica (que não é uma questão de Acta)?

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Ah e tal, sai um "prato" de promiscuidades...


Este país é mesmo um país que apenas dá importância a “processos”!

Então quando existe um “furto”, não existe sempre um gatuno e alguém que é a vítima! O que se deveria averiguar (discutir ou avaliar) nestes casos, não deveria ser o “objecto” de roubo, em vez de se estar preocupado se a coisa ocorreu de noite ou de dia? Ou se o queixoso fez bem ou mal a queixa?

Então, num acto concursal público em 2012, “alguém” pratica algo à margem da lei (de acordo com a Lei das Incompatibilidades) isto é, um bem que era público passou para a esfera da administração privada, em que um sujeito, simultaneamente, é dirigente na instituição pública (vereador) e gestor dessa coisa privada, e o que está em causa é uma mera formalidade de escrituração (acta)?

Lembremos ainda que os factos agora em causa, segundo o Jornal Público, sucederam no ano de 2012! Mas no final de 2013, os mesmos intervenientes, repetiram a mesma, e provável irregularidade, como se pode ver aqui. Apenas mudou o ramo: da restauração, passou-se para a construção civil.

O Presidente diz que não sabia que as Empresas eram do Vereador (porque terá então o vereador saído da Reunião de Câmara e não votado a decisão?). E o Vereador esqueceu-se que as Empresas eram dele, embora tenha entregue uma Declaração sobre tal nos órgãos próprios. E os Assessores? Esses andavam distraídos em campanha...

Siga a cegarrega que é a dança cá da terra / só não dança quem não quer / é encher a saca, chupar na teta da vaca / enquanto houver!



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

"Temos o direito de ser humilhados"

O que é que se podia esperar disto? Passaram 2 anos e...

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Esta é muita forte! Mas merece ser replicada...


Retirada daqui:

Uma descrição apressada das praxes por que passei
por António Manuel Venda

“Dei agora conta de que devo ser a única pessoa em Portugal que não escreveu sobre as praxes. Andei no ISCTE. Também apanhei com os filhos da puta logo à porta, no primeiro dia (eu ia do Algarve, de Monchique, acho que só conhecia vagamente a palavra praxe). Estavam dois tipos com uma rapariga que tinha pasta de dentes e creme de barbear. Achei estranho mas avancei para eles. Os dois tipos agarraram-me logo e a rapariga preparou-se para me encher o rosto e o cabelo com a pasta e o creme.

Concentrei-me apenas num dos que me agarravam e atirei-o ao chão, e nessa altura senti que tinha sido apanhado na cara nem sei já se pela pasta se pelo creme. Quando ia para dar um pontapé no focinho do filho da puta que estava no chão, o outro puxou-me para trás e ele entretanto levantou-se. Vi as coisas mal paradas para o meu lado, porque eram dois, havia a rapariga com as bisnagas e estava um terceiro a aproximar-se. Consegui libertar-me do que me agarrava e procurei na relva da entrada do ISCTE um pau, algum ramo de árvore, qualquer coisa que me ajudasse a equilibrar aquilo. Mas nada. Percebi então que o terceiro vinha tentar desapartar, embora pertencesse ao grupo dos filhos da puta. Lá disse umas coisas aos outros e entraram no edifício. Eu segui-os e procurei uma casa de banho. Estava envergonhadíssimo com aquelas merdas na cara, mas a certa altura vi alguns tipos cabisbaixos a caminharem pelos corredores com bigodes colgate e volumosas cabeleiras brancas.

Acabei por lavar a cara e quando saí nem passaram cinco minutos que não aparecesse mais um grupo de filhos da puta. Só tipos, desta vez e um com ar esquisito carregava as bisnagas. Mal os vi dirigirem-se a mim, apanhei um caixote do lixo e disse-lhes que ia haver ali merda. Não houve. Os filhos da puta passaram por mim sem fazerem um gesto ameaçador que fosse, mas um disse-me que eu ficava marcado. Pousei o caixote do lixo no chão, a conter-me para não lhe dar com ele nos cornos. Era o que me apetecia fazer. Partir os cornos do filho da puta que tinha dito que eu ficava marcado. Mas contive-me. E o dia passou, acho que só com uma aula e ainda por cima falsa, onde um palhaço qualquer a fazer de professor se fartou de recomendar bibliografia esquisita. Eu ainda cheguei a comprar um dos livros, antes de descobrir que a aula tinha sido falsa, para nos fazer de parvos. Não sei se mais alguém comprou.

Depois veio a parte pior, uma aula no auditório maior, teórica. Mas não era a aula. Era as praxes. Creio que foi um ou dois dias depois. Não tenho bem a certeza. Os alunos encheram o auditório. Acho que muitos sabiam que era para as praxes, mas eu, lá das serras do Algarve, pensei que era uma aula mesmo. Só percebi quando ao procurar um lugar numa das filas do meio me apareceu pela frente a tal rapariga da pasta de dentes e do creme de barbear e, sem que eu tivesse tempo de reagir, sacou um marcador verde do soutien (se é que usava e não o segurava entre as mamas) e fez-me um risco na cara. Apeteceu-me chamar-lhe cabra, mas não consegui porque nessa altura tinha a mente ocupada com a surpresa de estar na porcaria nas praxes e não numa aula teórica. O que poderia fazer? Era isso que eu pensava.

Fui-me sentar num lugar vago na fila em frente, e pelo caminho reparei, que a cabra já riscava outro rapaz depois de sacar o marcador, que escondeu logo a seguir. Pensei que deveria chegar a casa com as mamas todas verdes, porque parecia nem ter tampa no marcador. A cabra das mamas verdes. Podia haver quem gostasse. Pensei em Monchique, a minha terra. O Karaté das Estevas, se a encontrasse assim, de certeza que lhe chamava um figo. E o Renhaufe a mesma coisa. Já o Zé das Cabras talvez ficasse impressionado e fugisse dela. Não sei. Devo ter pensado em mais coisas.

Estava a escrever notas como estas num pequeno bloco, para tentar passar despercebido, mas de repente aquela merda começou. Entraram lá os que mandavam naquilo, inclusive os dois filhos da puta que me tinham recebido à porta no primeiro dia. Claro que fui um dos escolhidos pata ir fazer figura de parvo. Chamaram-me logo mais um grupo de cinco ou seis. Pensei que era por ter a marca na cara e que devia ter tentado tirá-la com cuspo. Mas não. Eles reconheciam-me mesmo sem a marca. Havia uns do grupo que não estavam marcados. Por isso lá fui. Ia decidido a não armar problemas no meio daquela assistência toda, onde percebi que estavam alguns professores, pela idade que aparentavam.

Aquilo era completamente estúpido e nalguns casos, para mim, humilhante. Mas calhou-me uma coisa fácil: ir para cima de uma cadeira, descalço (convém não ir para aquela merda com buracos nas meias), em frente a outro desgraçado nas mesmas condições e imitar um galo (fingir bater as asas com os braços e gritar có có ró có có). Fizemos os dois uma figura triste durante trinta segundos, mas não dava para desatar ali à porrada no meio do que parecia ser uma festa académica que até metia professores. Puta que os pariu também!

Regressei ao meu lugar, descalço, e só aí é que calcei as meias e as botas. Ainda havia quem se risse de mim. Decidi ignorar. Achei que já não me iam chatear mais. E a verdade é que não me chatearam. Mas os outros do grupo tiveram provas mesmo piores, pelo menos seriam piores para mim (por exemplo, ficar em cuecas, vestir uma saia transparente e dançar, o mais próximo que conseguissem do ballet. Parvoíces e mais parvoíces, com um auditório cheio a rir, inclusive os caloiros que não tinham sido escolhidos, a maioria, aliás.

Depois houve a eleição da miss caloira e nos dois primeiros lugares ficaram duas raparigas que depois descobri que calharam na minha turma. Essa parte não foi muito puxada para elas, não precisaram de se despir, mas para as avaliações tiveram de se pôr um bocado a jeito dos filhos da puta que iam conduzindo a festa. E foi assim, uma coisa soft, sem mortos nem feridos, mas eu não gostei.

E ainda me lembro dos filhos da puta da organização. Puta que os pariu! Devem gerir empresas por aí. O curso era de gestão. Ou estão desempregados. Ou emigraram. Ou algum já morreu. Eu sei lá..., Nunca gostei de merdas daquelas. Mas depois, com o passar dos anos, comecei a ver merdas piores, bem piores. E a saber de mortes. Tenho de reconhecer que aquilo da pasta de dentes e do creme de barbear se calhar nem merecia que se atirasse com um tipo ao chão. Mas se o tempo voltasse para trás eu agora ia esforçar-me mais para acertar mesmo com um pontapé no focinho do filho da puta que atirei ao chão. Foi uma semana daquela merda.

Mais tarde colegas meus, de Lisboa, disseram-me que já sabiam daquilo e que por isso não tinham aparecido nas aulas na primeira semana. Eu sabia lá... Eu tinha chegado de Monchique. Sabia tanto de praxes como o Karaté das Estevas, o tal que não haveria de deitar fora uma a cabra das mamas verdes. Por isso lá andei a semana inteira, a defender-me quando achava que era demais (bigodes de pasta de dentes, f***-se, nem que fosse preciso haver porrada...). Outras coisas deixei.

Outra cabra pintou-me a cara com giz. Andava sempre de giz na mão e acho que não usava soutien (pelo menos não tinha mamas). Era tão feia, tão feia mas mesmo tão feia que eu fiquei feito parvo a olhar para ela a tentar perceber se usava uma máscara ou se era mesmo assim. E entretanto ela pintou-me a cara de branco. Como tinha pintado tantos por ali, nem me preocupei em ir logo lavar a cara. Fui daí a bocado, antes de regressar a casa. A cabra feia parecia impressionar os caloiros. Deixavam-se pintar, de olhos fixados nela, incrédulos com o que viam. Cheguei a pensar que era uma bruxa, mas depois acabei por vê-la andar por lá com o saco dos livros e dos cadernos.

As raparigas das praxes eram quase todas feias, mas aquela distinguia-se. Já os tipos, o que os distinguia, era a tendência para a ordinarice e para manifestarem uma certa superioridade, e também o facto de andarem em grupo, não se desse o caso de terem de levar nos cornos. Terminou tudo ao fim de uma semana. Com mais uma aula teórica inventada no auditório maior. Aos poucos os caloiros tinham perdido o medo daquilo e já estavam por tudo.

O auditório encheu outra vez. E os mesmos tipos das praxes lá apareceram a conduzir a festa. A cabra das mamas verdes, dessa vez, nem a vi. A bruxa do giz branco a mesma coisa. Eu tinha-as posto as duas a caminho de Monchique numa das minhas histórias, a das mamas verdes para ser apanhada pelo Karaté das Estevas, a sem mamas para ficar a cargo do Renhaufe, ou talvez do Jacaréu, ou na volta para fazer o jeito ao Sapo dos Montes Claros. Se calhar foi por isso que não as vi, ou que não reparei nelas. Estavam na história e estavam muito bem. E a julgar pelo que eu sabia do Karaté das Estevas, do Renhaufe, do Jacaréu e do Sapo dos Montes Claros estavam bem fo*****. Aquelas duas cabras...

Fui-me sentar numa das últimas filas do auditório. Pensei que estaria mais a salvo do que pudesse acontecer. Mas a festa, afinal, era diferente. Os tipos queriam dar-nos uma espécie de lição de participação cívica, umas tretas, política, sei lá o que mais. Já se entrava na fase da seriedade. Já devíamos estar integrados na cultura académica. Pelo menos foi o que pensei que os filhos da puta pensavam. Senti-me tranquilo. Larguei o bloco onde escrevia e tomei atenção. O que seria que tinham preparado?

Muitos como eu fariam esta pergunta. Que teve respostas nem cinco minutos depois. Um dos filhos da puta, que usava um bigodinho parvo à Hitler só que castanho mais baixo e mais largo (enfim, com tantas diferenças nem seria um bigode à Hitler, mas também não era nenhum bigode à Clark Gable...), esse tipo apresentou um orador. Era um colega nosso, que estava lá matriculado havia já algum tempo mas que ao que percebi ainda se mantinha no primeiro ano. Foi a única vez que o vi lá.

Apresentou-o como um promissor líder político. Isto vai para trinta anos. Era de uma juventude de um partido, a socialista. Nada retive do que nos disse durante já não sei quanto tempo. Foi apresentado como António José Seguro. Para mim foi como se tivessem dito que era o Manuel Francisco da Silva. Ou o Karaté dos Montes Claros. Ou o Jacaréu Renhaufe das Estevas. Não o conhecia de lado nenhum. Nem fiquei a conhecer. Mais tarde é que ouvi falar dele, cada vez mais!”

Ah ganda Tonho, quem escreve assim não é gago. Eu, no seu lugar, faria o mesmo.

Ver, ouvir, e..., refletir


sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Ó Crato, assim não chegamos a alter (do chão)...

Consta, como se pode ler aqui, que a reunião (a reboque) que o ministro teve com as “poderosas” associações de estudantes do ensino superior, acabou com este “em cima da mesa, de boxers e coberto de farinha”; e com os ditos estudantes associativos a entoar os cânticos do costume: «E se o Craaaaaato quer ser cá da malta, tem que beber este copo até ao fim, até ao fim...».

Certamente, e devido a tão forte “argumentação” apresentada e discutida, o ministro, no final apenas invocou o direito dos alunos a resistirem às praxes
Sim, sim, sr. ministro, não duvide que esse é o caminho, espere sentado...

Entretanto deixo aqui 2 exemplos de hipóteses que talvez resolvessem a coisa de vez. Mas isto sou eu a pensar:

Hipótese A:

Em 1727, D. João V determinou que face a abusos idênticos "todo e qualquer estudante que por obra ou palavra ofender a outro com o pretexto de novato, ainda que seja levemente, lhe sejam riscados os cursos". Sigam o exemplo do Magnânimo e decretem desde já medida semelhante. Vão ver como estes abusos acabam num instante

Hipótese Alternativa:

Cortem-se os subsídios às associações académicas das universidades que permitam as praxes. A ver se não assumiam logo responsabilidades, em vez de dizerem que não têm nada a ver com as comissões de praxes.

Nota: Já agora, alguém me explica com é possível o “dux” de Coimbra, José Luís Jesus, ter 24 matrículas na universidade? Numa universidade pública a gastar impostos dos contribuintes? Que ensino é este?...


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Se..., se..., se....


Se Sebastião cá voltasse, se a moleza se cansasse, se o Eusébio ainda jogasse, ai que fintas que ele faria um dia...

Se o imposto não subisse, se o emprego não fugisse, se o presidente sorrisse, outro galo cantaria um dia:

E se cá nevasse? Fazia-se cá ski...

Há sempre um "se" no caminho, que me deixa as mãos tão presas, se eu cortasse o "se" daninho? Talvez me livrasse das incertezas...


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Talvez o mais alto cargo de um marvanense!

Como se pode ler aqui, Vítor Caldeira, acaba, recentemente, de ser reeleito para um 3º mandato de Presidente do Tribunal de Contas Europeu, sendo a primeira vez que alguém é eleito para 3 mandatos nesta Instituição.

Vítor Caldeira, pelo seu percurso de vida e profissional, deverá ser digno da admiração de todos os marvanenses. Não é todos os dias que Marvão vê um dos seus “filhos” em tão alto cargo na Europa e no mundo. Eu por mim não esqueço, e quer neste espaço, quer no Fórum Marvão, é a terceira ou quarta vez que o lembro.

Acho que já era tempo da Autarquia de Marvão homenagear Vítor Caldeira. Aqui fica o desafio para que num dos próximos “dias do concelho” seja feita essa elementar justiça.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O mundo dos outros....


Um dos mais belos textos que li ultimamente, e por isso não posso deixar de o partilhar com os meus amigos, em particular, aqueles que agora têm filhos pequenos. Deveria servir para todos reflectirmos. Primeiro individualmente, e depois em grupo.

"Um dia isto tinha que acontecer, por Mia Couto

Um dia isto tinha que acontecer. Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida. Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações. A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor. Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1.º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.

Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego..., A vaquinha emagreceu, feneceu, secou. Foi então que os pais ficaram à rasca. Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado. Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais. São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos quaisquer coisa phones ou pads, sempre de última geração.

São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!

A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas. Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados. Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.

Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. 

Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere. Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.

Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras. Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável. Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada. Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração? Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos! Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).

Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja! que chatice! são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida. E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!

Novos e velhos, todos estamos à rasca. 

Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens. Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles. Haverá mais triste prova do nosso falhanço?


(Mia Couto)"

domingo, 26 de janeiro de 2014

Aos duxs e afins deste país...


Depois do último Post que aqui publiquei, onde nunca me referi, particularmente, a uns tais “de duxs”, mas antes, procurei criticar, no geral, as praxes absurdas que hoje vejo por aí, os riscos que a todos níveis comportam: físicos, mas sobretudo psicológicos...; alguns amigos, e alguns artigos que li, imediatamente, acharam que eu estava a incriminar um tal de “dux joão miguel”, e que me estaria a precipitar: que eu não entendia nada do fenómeno, que lá e tal coitado do moço, que é muito bom rapaz, que até ele podia ter morrido, sofredor ele que também é uma vítima, que eram todos maiores, e, logo responsáveis, etc., etc., o trivial em Portugal: desculpar os réus e culpabilizar as vítimas.

Hoje resolvi de facto dirigir-me a esse tal “de dux joão miguel” (e outros energúmenos que andam por aí a formatar mentes) não através dos valores e princípios de uma sociedade de direito e de bom senso dos seus 900 anos de idade, mas através, ao que parece, da filosofia e doutrina que suportam esse tipo de rituais pré-históricos. É com base nesses princípios, que te questiono a ti “dux joão miguel” (e todos os outros “duxs” de meia tigela que andam por aí), que depois do que aconteceu, (parece que hoje já não existem dúvidas que se tratava de um episódio de praxe) que podes ter jeito para tudo “ dux joão miguel”, mas para DUX, tu jamais te julgues isso, senão vejamos:

- Que raio de “dux” és tu, que sais com o teu grupo para uma missão, morrem todos, e tu salvas a pele?

- Que raio de “dux” és tu, que após o que se passou te encerras em casa, como rato num buraco, e dizes que estás traumatizado com a cena, isso é de um “Dux”?

- Que raio de “dux” és tu, que nem ao menos és capaz de já ter enfrentado os familiares das pessoas que lideravas, e explicar-lhes o que se passou?

- Que raio de “dux” és tu que vens agora dizer que só falas no lugar e nas instâncias certas! Então tu achas que os familiares das pessoas que lideravas não deveriam ser as primeiras a informar? Quais são os teus valores “dux joão miguel”?

Poder-te-ia fazer mais mil perguntas “dux joão miguel”, bem como a todos os outros “duxezinhos” que andam e vão continuar por aí a fazer as suas graçolas (porque têm público e a coisa vende-se, tal como os Romanos vendiam o Circo, ou a Inquisição as fogueiras) mas penso não valer a pena. Contrariamente ao que dizem alguns amigos meus, esta boa sociedade portuguesa judaico-cristã já te absolveu e desculpabilizou, como desculpabilizou a Inquisição, a Pide, e outras que tais: tu afinal, não passas de uma vítima.

Mas para mim, podes até ter jeito para tudo (olha, por exemplo, um lugar de assessor num qualquer gabinete ministerial a ganhar 4 000 euros/mês, não eras o primeiro, a lusófona e a católica estão fartas de meter lá “especialistas” da tua idade, e das sociedades secretas em que navegas) mas DUX? Bem isso, digo-te mais uma vez, tu nunca serás. Só por nomeação, ou por chegares a velho.

Haja juízo...

Mais um bom texto Aqui.   , ou esta aqui que me enviou o Luís Bugalhão.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O mundo dos outros...

Não sei se o texto que aqui reproduzo se aplica ao caso, ou seja a morte de 6 jovens na flor da idade, ainda nos faltam alguns dados. Mas o que sei, é que tenho observado coisas idênticas, inclusivamente, na minha cidade. Revolta-me e enoja-me o que vejo nas praxes de hoje, e sempre que passo por aqueles idiotas (os organizadores), só a muito custo me reprimo, e não lhes dou um grande pontapé no cu, que é o que eles merecem. Mas acho que da próxima vez não hesitarei.

Não são apenas os idiotas organizadores os responsáveis pelas vergonhas que se vêem todos os princípios de ano em todas as escolas. Co-responsáveis são, também, os Conselhos Directivos, Gestão das Escolas e as Autoridades deste país, que permitem estas autênticas cretinices.

Fui militar, Oficial de Cavalaria, fui praxado no Curso, mas sempre com respeito pela integridade física e psicológica, sem as palermices que vejo por aí. Nenhum "dux" ali se atreveria a perder ou ultrajar um camarada. Quantos jovens terão ainda que ser sacrificados para acabarem com esta merda? Atenção, moro em Portalegre, e da próxima vez que vos veja por aí, não me vou calar. Vão praxar a puta que vos pariu...

O texto que se segue foi retirado daqui, mas gostava de ter sido eu a escreve-lo

“Carta aberta a um Dux”


“Dux:

Ando aqui com esta merda entalada há já algum tempo. A ouvir as diferentes versões, a pensar nas dúvidas e a pôr-me no lugar das pessoas. Tento pôr-me no lugar dos pais dos teus colegas que morreram. Mas não quero. É um lugar que não quero nem imaginar. É um lugar que imagino ser escuro e vazio. Um vazio que nunca mais será preenchido. Nunca mais, Dux. Sabes o que é isso? Sabes o que é "nunca mais"?

A história que te recusas a contar cheira cada vez mais a merda, Dux. Primeiro não falavas porque estavas traumatizado e em choque por perderes os teus colegas. Até acreditei que estivesses. Agora parece que tens amnésia selectiva. É uma amnésia conveniente, Dux. Curiosamente, uma amnésia rara resultante de uma lesão cerebral de uma zona específica do cérebro. Sabias Dux? Se calhar não sabias. Resulta normalmente de um traumatismo crânio-encefálico. Portanto Dux, deves ter levado uma granda mocada na cabeça. Ou então andas a ver se isto passa. Mas isto não é uma simples dor de cabeça, Dux. Isto não vai lá com o tempo nem com uma aspirina. Já passou mais de 1 mês. Continuas calado. Mas os pais dos teus colegas têm todo o tempo do mundo para saber a verdade, Dux. E vão esperar e lutar e espremer e gritar até saberem. Porque tu não tens filhos, Dux. Não sabes do que um pai ou uma mãe é capaz de fazer por um filho. Até onde são capazes de ir. Até quando são capazes de esperar.

Vocês, Dux... Vocês e os vossos ridículos pactos de silêncio. Vocês e as vossas praxes da treta. Vocês e a mania que são uns mauzões. Que preparam as pessoas para a vida e para a realidade à base da humilhação, da violência e da tirania. Vou te ensinar uma coisa, Dux. Que se calhar já vai tarde. Mas o que prepara as pessoas para a vida é o amor, a fraternidade, a solidariedade e o civismo. O respeito. A dignidade humana e a auto-estima. Isso é que prepara as pessoas para a vida, Dux. Não é a destruí-las, Dux. É ao contrário. É a reforçá-las.

Transtorna-me saber que 6 colegas teus morreram, Dux. Também te deve transtornar a ti. Acredito. Mas devias ter pensado nisso antes. Tu que és o manda-chuva, e eles também, que possivelmente se deixaram ir na conversa. Tinham idade para saber mais. Meco à noite, no inverno, na maior ondulação dos últimos anos, com alerta vermelho para a costa portuguesa? Achavam mesmo que era sítio para se brincar às praxes, Dux? Ou para preparar as pessoas para a vida? Vocês são navy seals, Dux? Estavam a preparar-se para alguma missão na Síria? Enfim. Agora sê homenzinho, Dux. E fala. Vá. És tão dux para umas coisas e agora encolhes-te como um rato. Sabes o que significa dux, Dux? Significa líder em latim. Foste um líder, Dux, foste? Líderes não humilham colegas. Líderes não "empurram" colegas para a morte. Líderes lideram por exemplo. Dão o peito e a cara pelos colegas. Isso é um líder, Dux.

Não sei o que isto vai dar, Dux. Não sei até que ponto vai a tua responsabilidade nesta história toda. Mas a forma como a justiça actua neste país pequenino não faz vislumbrar grande justiça. És capaz de te safar de qualquer responsabilidade, qualquer que ela seja. Espero enganar-me. Vamos ver. O que eu sei é que os pais que perderam os filhos precisam de saber o que aconteceu. Precisam mesmo, Dux. É um direito que eles têm. É uma vontade que eles precisam. Negá-los disso, para mim já é um crime, Dux. Um crime contra a humanidade. Uma violação dos direitos humanos fundamentais. Só por isso Dux, já devias ser responsabilizado. É tortura, Dux. E a tortura é crime.

Sabes, quero-me lembrar de ti para o resto da vida, Dux. Sabes porquê? Porque não quero que o meu filho cresça e se torne num dux. Quero que ele seja o oposto de ti. Quero que ele seja um líder e não um dux. Consegues pereceber o que digo, Dux? Quero que ele respeite todos e todas. Que ele lidere por exemplo. Que ele não humilhe ninguém. Que seja responsável. Que se chegue à frente sempre que tenha que assumir responsabilidades. Que seja corajoso e não um rato nem um cobardezinho. Que seja prudente e inteligente. E quero-me lembrar também dos teus colegas que morreram. Porque não quero que o meu filho se deixe "mandar" e humilhar por duxezinhos como tu.

Não quero que ele se acobarde nem se encolha perante nenhum duxezinho. Quero que ele saiba dizer "não" quando "não" é a resposta certa. Quando "não" pode salvar a sua dignidade, o seu orgulho ou até a sua vida. Quero que ele saiba dizer "basta" de cabeça erguida e peito cheio perante um duxezinho, um patrãozinho, um governozinho ou qualquer tirano mandão e inseguro que lhe apareça à frente. É isso que eu quero, Dux. Quem o vai preparar para a vida sou eu e a mãe dele, Dux. Não é nenhum dux nem nehuma comissão de praxes. Sabes porquê, Dux? Porque eu não quero um dia estar à espera de respostas de um cobarde com amnésia selectiva. Não quero nunca sentir o vazio dos pais dos teus colegas. Porque quero abraçar o meu filho todos os dias da minha vida até eu morrer, Dux. Percebeste?

 Até EU morrer. EU, Dux. Não ele...”

Conversas e conversadores que me irritam (2)

 Disse o deputado João Oliveira, de cima da sua impoluta ideologia, que houve médicos que lhe disseram na Assembleia da República, que devido aos cortes de financiamento no Serviço Nacional de Saúde, nos hospitais já se fazem fraldas aos idosos com “toalhas e sacos de plástico”!

Eu espero que o Senhor Deputado tenha questionado esses mesmos médicos, sobre os desperdícios de custos com a “hipermedicação” aos utentes nesse mesmo SNS (para além do excesso de Exames Complementares de Diagnóstico), e da responsabilidade desses mesmos profissionais, e que rodam, segundo todos os estudos, valores superiores a 35%.

Se o Senhor Deputado souber qual é o total de custos com Medicamentos em Portugal (basta perguntar ao camarada Eugénio Rosa), eu posso saber, fazendo uma simples regra de “3 simples”, quanto se pouparia com uma medicação assertiva...

Garanto-lhe, senhor deputado, que se isso fosse feito, os nossos doentes até podiam usar fraldas de cetim!

TA: Esqueci-me que o informador do senhor deputado deve ter sido um médico do Partido Comunista, e esses? Bem, esses são diferentes! Eu é que não os conheço, nem me parece que alguém tenha estudado a coisa.   

Conversas e conversadores que me irritam (1)

Com políticas que os do costume apelidavam de erráticas e suicidas, a gestão da coisa Pública em Portugal começa a ter alguns sinais positivos: Despesa pública a diminuir, manutenção de receitas, divida pública a aumentar menos, défice público face ao PIB a abrandar, bom desempenho da balança de transacções correntes (importações vs exportações), etc.; ténues é certo, e impulsionados pela conjuntura externa, mas mais dia, menos dia, a economia portuguesa começará a dar alguns sinais positivos, e com impacto na vida das pessoas.

Mesmo assim, andam por aí alguns analistas da treta e comentadores de meia-tigela (muitos até de barriga cheia, e que só enterraram o país quando tinham responsabilidades de governação), a questionar os governantes que isso não se nota na vida dos portugueses! 

Apesar de termos um governo, que sem que eu saiba porquê, insiste em comunicar mal e a más horas, a esses perguntadores, uma só resposta devia ser dada:

- Se vocês não notam nada, ponham-se no lugar das mais de 20 000 pessoas que em 2013 têm trabalho e salários (apesar de muitos precários), quando comparando com 2012, e perguntem-lhes qual a diferença?


Nota: Segundo o INE em 2013 perderam-se 100 000 postos de trabalho, mas foram criados 120 000 novos.       

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Memórias do dia 22 de Janeiro de 1974: 40 anos depois...

Dedico este Post ao meu sobrinho Luís Bugalhão. Para memória futura:

CAPÍTULO I – Escrito em Janeiro de 2010

Recorde-me hoje, com algum detalhe, e passados 36 anos, do dia 22 de Janeiro de 1974. Portugal, nesse período, era governado pelo Estado Novo, que se caracterizava por ser um regime autoritário, conservador, nacionalista, corporativista, de inspiração fascista, anti-parlamentarista, anti-comunista, e colonialista. O regime tinha a sua própria estrutura de Estado, e um aparelho repressivo (PIDE, colónias penais para presos políticos, etc.), característico dos chamados Estados policiais, apoiando-se na censura, nas organizações paramilitares: Legião Portuguesa, e as suas organizações juvenis (Mocidade Portuguesa), no culto do "Chefe" autoritário. Encontrava-se ainda envolvido numa Guerra Colonial desde 1961, contra os Movimentos de Libertação das Colónias Africanas, para onde enviava, a combater, os seus jovens na flor da idade (com 20 anos), para matarem, e muitos aí morrerem.

A nível laboral, o país era dominado pelas Corporações, que tinham o seu próprio Ministério no Governo. As relações entre os trabalhadores e patrões eram, basicamente, reguladas pelo poder patronal, com uma fraca contratação colectiva.O movimento sindical era dominado por essas mesmas Corporações, que aí se faziam representar por trabalhadores por si indicados, existindo, no entanto, por essa data, algumas excepções em sindicatos onde os trabalhadores conseguiam colocar os seus representantes, como era o caso dos Metalúrgicos. A palavra “GREVE” era vocábulo proibido, e amargava na boca daqueles que a pronunciavam, pois a promessa de passarem 6 meses de “férias” em Caxias, no Aljube, ou em Peniche, era quase garantida.

O desemprego não existia desde meados dos anos sessenta. Estávamos em plena “era dourada”, da revolução industrial portuguesa. Novos e velhos (que nessa época eram poucos), homens e mulheres, todos os dias arranjavam trabalho, e/ou mudavam de patrão, perante aquele que lhe oferecesse melhores condições e melhor recompensa. No entanto, a partir de 1972, e após a primeira “crise do petróleo”, que as dificuldades começaram a aumentar, e, no início do ano de 1974, só com um poder reivindicativo forte, ou com um “patrão bom”, se conseguia que o patronato lá fosse abrindo os cordões à bolsa, com um pequeno aumento salarial, para fazer face ao aumento do custo de vida e inflação.

Por essa altura, eu era um moço de 16 anos, isto é, um adolescente, como hoje são designados os jovens dessa idade, mas já carregava comigo 5 anos de trabalho como assalariado. Primeiro, entre 1969 e 1971 na empresa Celtex em Santo António das Areias; e a partir de Julho de 1971, como Aprendiz de Serralheiro Civil numa empresa de metalomecânica no concelho de Sintra (para onde tinha “emigrado” para poder estudar), de seu nome: Cacém Industrial Metalúrgico.

Era usual, nessa empresa, que em todos os anos em Maio, o patrão Neves procedesse a alguns aumentos de ordenados, consoante o nosso comportamento individual ao longo do ano. No meu caso, foi assim que, em 1972 passei de 30 para 35 escudos diários (6 dias por semana, num total de 48 horas semanais), e no ano seguinte, tinha progredido para uma quantia de 43 escudos por jornada diária de 8 horas.

Mas o ano de 1973 já não havia sido fácil para a economia portuguesa. A inflação tinha disparado como há muito não acontecia, e começou a sussurrar-se, em pequenos grupos, que o melhor seria que o patrão Neves fizesse a tradicional actualização salarial logo do mês de Janeiro, para ver se a malta conseguia aguentar-se, e usufruir da possibilidade de ter mais “algum”, daquele com que se compravam e compram os “melões” bem como outros bens essenciais, e que por essa altura eram pouco mais que o pão, o leite e o vinho.

Só que, contactado o “sr. engenheiro”, pelos operários mais velhos da casa (quais delegados sindicais ou comissões de trabalhadores, que ainda estavam para nascer), este mandou dizer, e nada bem disposto com a ideia: “que nem pensar, nem em Janeiro, e o mais que provável, era que nem em Maio, porque a vida estava difícil para todos e, os patrões, também não andavam propriamente a nadar em dinheiro”.

Este recado de negação absoluta, diga-se desde já, não caiu nada bem no peito daqueles cerca de duzentos homens e rapazes, oxidados por fora e por dentro, à reivindicação, que, na nossa perspectiva, nos parecia mais que justa, e, sem se saber muito bem como, a palavra interditada GREVE, começou a circular de boca em boca.

Não sei ainda, até aos dias de hoje, a génese de tal devaneio de andar-se a pedir aumentos e a importunar os tão "bons" dos patrões. Havia quem dissesse, mais tarde, que a iniciativa havia surgido do nada, e como tantas vezes acontece: um homem lembrar-se no seu âmago, de uma sensação de injustiça, de uma paixão de causas, de um sentimento reprimido e, zás, vamos a isto que se faz tarde. Mas, sempre houve aqueles que, afiançavam, que por detrás de tal génese estavam as tais “lebres”, que nos fala o Saramago, em Levantado do Chão.

O facto é que, pelas 10 horas, do dia 22 de Janeiro, e quatro meses antes do futuro Dia da Liberdade, e, da GREVE se tornar uma coisa banal e de arremesso político partidário,  os cerca de 200 proletários da CIM, fizeram ali naqueles pavilhões de trabalho e suor, um silêncio sepulcral naquele arraial de “malhar ferro”, e, mandaram dizer ao patrão Neves, que a partir daquela hora, estavam em greve, até que ele decidisse proceder à justa actualização salarial.

Eu era um deles e, claro, também aderi…



Capítulo II – Escrito em Janeiro de 2011

Parece que foi ontem, e já passou um ano desde que aqui vos contei a primeira parte, desta minha aventura de 22 de Janeiro de 1974. É assim o tempo, esse maganão que nunca pára, avançando sempre, sem contemplações, indiferente ao bom ou mau (tempo) de acordo com a perspectiva de cada um.

Quando penso nesta questão do “tempo”, ou como ele passa apressadamente, vem-me sempre à memória aquela alusão de Saramago, sobre a sua avó materna, de nome Josefa Caixinha, feita no discurso de recepção do Prémio Nobel da Literatura, quando este recordava estas suas palavras:

“… o mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada...” 

Mas vamos em frente (no tempo), que o que aqui quero partilhar convosco, não é propriamente literatura, e muito menos poesia, mas antes um acontecimento único e que me marcou para a vida. Para uma actualização integral, se já caiu no vosso esquecimento, recomendo que recueis há um ano atrás e, carregando ali, na “caixinha” (que não é a avó do José) do lado direito, no ano de 2010, mês Janeiro, do Blogue Retórica bugalhónica, lá hão-de encontrar um artigo, com o mesmo título do de agora, para poderem fazer o enquadramento da história.

A Greve, naquele tempo, era para a maioria de nós, uma coisa assim como o longínquo ano 2000, que as profecias anunciavam ser, o ano do fim do mundo, algo que se ouvia murmurar, mas que, certamente, não existiria. Estar, num impulso, metido no seu seio, ficava-se assim como uma criança que vai ao “comboio fantasma” pela primeira vez, mesmo que acompanhada pelos pais.

Se eu sabia, por nessa altura, que era proibido fazer greve? Claro que sabia. Se sabia que existia a policia política PIDE, que tudo controlava? Claro que sim. Se sabia que todos os dias iam parar a Caxias, Aljube ou Peniche, pessoas por apenas contestarem a ordem vigente? Sem dúvida. Se sabia que as pessoas que aí eram aprisionadas, eram vilmente torturadas, às vezes até à morte? Claro que não podia ignorar: via, ouvia e lia. No entanto, para mim, jovem aventureiro de 16 anos, entrei nessa “estação fantasma”, sem medir prós ou contras, apenas movido por aquilo que me parecia ser o mais elementar sentido de justiça: lutar pela melhoria de condições de vida. Isso bastava-me, depois logo se veria.

Durante as primeiras duas horas, isto é, até ao meio-dia desse dia 22 de Janeiro, hora em que íamos almoçar, nada sucedeu. Apenas algumas conversas fúteis sobre a vida, e que no meu caso específico, certamente, seria alguma combinação com o camarada do lado, sobre a hora e o local do bailarico do próximo fim-de-semana. Ou, lembro-me lá, uma qualquer discussão “futeboleira” sobre rivalidades de benfiquismo/sportinguismo, já que os tripeiros naquelas paragens, para além de raros, naquela tempo ainda não contavam para o campeonato.

Após almoço ligeiro, transportado em “lancheira”, comido ao ar livre, sentado numa qualquer pedra mais saliente, ingerido directamente da dupla marmita de alumínio, habitada num compartimento pela sopa de legumes, e no outro, por alguns restos de guisado da noite anterior acompanhado de pequenas sopas de carcaça, lá regressámos ao silêncio cavernoso do posto de trabalho, que mais acertado seria, chamar-se naquele dia: posto de greve. Passava pouco das 14 horas, quando à entrada do pavilhão principal da oficina, surgiu, repentinamente, o patrão Neves da Silva, na sua figura altiva, agasalhado com o seu impecável sobretudo preto, acompanhado do “encarregado-geral”, e do chamado “guarda-livros”.

Visto de longe, a cerca de cinquenta metros em linha recta, via-o movimentar-se bruscamente dirigindo-se, individualmente, a cada um dos meus camaradas operários metalúrgicos, que ocupavam o seu local de greve. Dirigia-lhes algumas palavras, em voz bastante alta e alterada, mas que, pela distância a que estavam de mim, me era impossível enxergar. Após o breve monólogo que travava com cada um, e como formigas num carreiro, os contactados grevistas, sem excepção, lá se iam dirigindo para a porta da rua.

Quando chegou a minha vez, senti-me como que a enfrentar um pelotão de fuzilamento, embora a dúvida do conteúdo do monólogo com a entidade patronal, já se haver esfumado, pois já ouvira bem claro, o que se passara com aqueles que mais próximos estavam de mim. E assim, foi sem qualquer surpresa, que ouvi da boca do senhor Engenheiro Neves, a pergunta que repetia pela quinquagésima vez:

- O “senhor” quer ou não trabalhar?

“Ainda passou pela cabeça argumentar que Sim, que queria! Que gostava muito daquele trabalho, e precisava dele como do pão para a boca! Mas, que o senhor engenheiro fosse criterioso, pois bem sabia, que o custo da vida estava pelas horas da morte, que as rendas de casa tinha aumentado, até a electricidade em casa já andava a ser substituída por velas; o comboio, já custava seis escudos do Cacém para Lisboa, e até pela “bica” já custava vinte e cinco tostões; ir ao cinema? Só no “piolho” aqui da terra! Saiba, o senhor engenheiro, que a malta mata-se aqui a trabalhar, a dar o litro dez horas por dia; eu, uma criança como pode ver e que ainda devia estar na escola, pela manhã até já cuspo ferrugem deste maldito óxido de ferro e, à noite, só oiço “grilos” a cantar nas orelhas; os maganos daqueles sarracenos não param de aumentar o preço do petróleo, e como o senhor sabe, quando aumenta o crude, aumenta tudo! O patrão bem sabe, que fomos nós, com o nosso trabalho, que fizemos esta média empresa, e não se esqueça que, ainda há três anos, funcionava num “vão de escada”. E já agora, senhor engenheiro, o que era isso para si de, apenas mais dez escudos por dia a cada um de nós? Etc., etc.….”

Mas não. Baixei a cabeça, por ser a primeira vez que estava tão de perto com tamanha eminência, não prenunciei uma só palavra, e lá segui no formigueiro, para a porta de saída. Evitando assim, ao Sr. Neves da Silva, a palavra por si mais repetida naquele dia: RUA!


Capítulo III – Escrito em Janeiro de 2012

Como já havíamos revelado no Capítulo anterior, esta «média empresa CIM», não passava há três anos atrás, de uma pequena oficina familiar de vão de escada, com meia dúzia de operários que, praticamente, executavam apenas obra miúda, tal como: portas, portões e janelas em ferro, para protecção das propriedades privadas das redondezas. Havia sido concebida e criada “a meias” entre dois sócios, em que um, à boa maneira portuguesa, se havia desenvencilhado do segundo, assim que a coisa começou a prosperar e dar rendimentos.

As instalações de produção eram constituídas por dois grandes pavilhões contíguos que, embora iguais no seu formato parecendo irmãos, poder-se-ia antes dizer, que um havia parido o outro, sendo assim um o principal e o outro o secundário. Ali eram construídas toda a gama de maquinaria para a Construção Civil desde gruas a betoneiras, até silos e cofragens. Ali trabalhavam mais de duzentos operários entre traçadores, cortadores, torneiros, maçariqueiros, ferramenteiros, desempenadores, serralheiros civis e mecânicos, soldadores, serventes para toda a obra, montadores, electricistas, fresadores, aprendizes, praticantes de tudo e de nada, controladores de produção e qualidade, chefes de secção e gerais, etc., etc. Digamos que, de grosso modo, ferro era connosco.

Apesar desta vocação institucional pelo metal, ainda me lembro como se fosse hoje do episódio de praxe do “martelo de desempenar borracha”, a que fui submetido, quando estava no segundo dia de tirocínio da arte do malhar ferro, e ter chegado à minha beira, um daqueles já experimentados “mestres ratinhos” e ter-me ordenado: «- Ò chaval, vai além à Ferramentaria, levantar um martelo de desempenar borracha! E vai num pé e vem no outro, senão tens que experimentar a densidade da verga de aço nessas nalgas, que a tenho aqui guardada para os molengões alentejanos...».

Tendo eu, nessa altura, apenas catorze anitos, pensava já não ser dos mais tolos, e um “martelo de desempenar borracha”, não lembrava ao diabo! Mas, quem se atrevia a desobedecer nessa época a um “mestre”? E foi assim, com ar desconfiado mas sem pestanejar, que lá fui em demanda da peculiar ferramenta de endireitar a borracha. Claro que, ao meu pedido envergonhado, o ferramenteiro, me cravou um volumoso “embrulho” com mais de vinte quilos, que lá tinha sempre pronto a entregar aos incultos e novatos na arte de malhar o ferro.

Sobre a data desta pequena praxe, já haviam passado mais de dois anos, quando ocorreram os acontecimentos desse dia 22 de Janeiro de 1974. A cena que relatámos anteriormente de conflito entre o representante do capital e o jovem proletário de 16 anos que eu era, repetiu-se nessa manhã, cerca de duas centenas de vezes. Tantas quanto o número de operários que ali trabalhavam, e que, naquele dia, por questões de reivindicativa justiça salarial, resolveram não o fazer.

Sendo o pavilhão secundário como que filho do principal, ali labutavam os proletários admitidos mais recentemente, os mais novos, quer na empresa quer em idade; ficando o pavilhão principal para aqueles trabalhadores mais antigos na casa, alguns deles oriundos da oficina mãe do vão de escada, e que mantinham ainda com o patronato uma espécie de relação de amizade pelo caminho que haviam percorrido em comum, quando ainda uns não eram mandantes e, os outros ainda não eram mandados. Esta premissa viria a influenciar, acentuadamente, todo o desenrolar dos acontecimentos daquele dia.

Não admira pois que no pavilhão secundário, o primeiro a ser inquirido pela eminência patronal, sobre se queriam ou não trabalhar, a negação de iniciar labuta pelos abordados, tenha tido uma adesão praticamente total; já no denominado pavilhão principal, sem que no secundário se percebesse porquê e, perante a pergunta do engenhocas, a resposta mais frequente foi, em vez do esperado não, ter-se começado a ouvir, com alguma frequência e intensidade, as rebarbadoras a chiar e os martelos a castigar o ferroso metal.

Estava assim encetado o princípio estratégico de dividir para reinar, e a partir dali, as “formigas” que haviam abandonado a caverna, teriam de lutar por si. Embora, se viessem a sair vitoriosas, os provimentos seriam para todo o formigueiro. O costume!

Foi assim que, enquanto metade daqueles que haviam iniciado a peleja já ajustavam moldes nas chapas, faziam deslizar com maestria o punção ou escopro batidos pelo martelo, riscavam com o traçador de ponta de diamante, serravam bocados de ferro, com as guilhotinas, cortavam as chapas com violência, assentavam esqueletos de longarinas e pivôs nos gabaritos, soldavam a eléctrodo incandescente tirantes e degraus, ensaiavam lanças e contra-lanças, faziam rolar as calandras e tornos mecânicos, apertavam grampos, moldavam curvas nas bigornas, desempenavam cantoneiras, empilhavam vigas, faziam expirar os foles das forjas, acendiam maçaricos de oxigénio e gás metano, faziam furos de berbequim, rebarbavam chanfres para soldaduras, acertavam esquadrias, faziam deslizar pontes rolantes, ou experimentavam croquis...

Nós, aqueles que tinham recebido e acatado a ordem de expulsão senhorial, deparámo-nos, subitamente, num grupo com cerca de uma apenas uma centena de embotados à porta de entrada do pavilhão secundário, esperando o regresso do soberano engenheiro, dispostos a tudo, para tentarmos em grupo, aquilo que não havíamos logrado individualmente.

Neves da Silva, não se fez esperar muito. Mesmo que nos quisesse fugir, aquela que era a porta de entrada, também era a única porta de saída e, janelas se existiam, ficavam demasiado altas para serem escaladas por sua excelência. Mostrando alguma coragem, aproximou-se do hostil grupo de 100 enferrujados que, rapidamente, o rodearam, e uma conversação estranhamente pacífica e respeitosa iniciou-se: Nós: alegando da necessidade do aumento salarial para fazer face ao aumento do custo de vida; ele: contra-argumentando tal impossibilidade, com a finalidade de manter a empresa viável. O trivial nestas coisas.

De considerando em considerando, de fundamento em fundamento, num diálogo de negociação de surdos, e sem que qualquer das partes mostrasse vontade de ceder, passadas que foram duas horas a malhar ferro de língua, a entidade patronal lá anuiu a que os enferrujados poderiam voltar no próximo dia aos seus postos de trabalho, se assim o quisessem, pois ele acedia a anular a ordem de despedimento. Quanto à reivindicação de aumento salarial? Essa, nem em Maio como vinha sendo tradição, quanto mais em Janeiro. Sentença de patrão!

Não proliferava por essa época a comunicação social marialva e de papagaios de hoje, senão não faltariam comentários e declarações obstinadas, sobretudos para as televisões, de cada uma das partes a clamar por vitória, argumentado os representantes de uns:

“... que tinha este processo de luta reivindicativa sido um êxito, pois havia-se conseguido uma adesão em números da paralisação de cem por cento por parte dos trabalhadores, que apesar de metade deles terem chegado a ser despedidos, o patronato teve que ceder e proceder à sua reintegração imediata, isto para além de ter sido um acto heróico, possivelmente até histórico, isto de fazer uma greve num regime totalitário que a proibia e, logo, o governo, como sempre ao lado do capital, também havia saído derrotado e, quem sabe, até ferido de morte”;

E pela outra parte, não deixaria de aparecer o Sr. Engenheiro acompanhado, certamente, por três ou quatro capangas de gabardina cinzenta, que aliás o acompanharam sempre durante a sua deambulação pelos pavilhões fabris, defendendo que:

“...mais uma vez a inegável responsabilidade desta administração, apoiada sempre por suas excelências as autoridades corporativas em representação do patriótico governo da nação, haviam levado a bom porto, e debelado mais uma pequena rebelião, em que, não mais de meia dúzia de trabalhadores metalúrgicos, certamente mal aconselhados, ou mesmo manipulados por forças ocultas, quiçá estrangeiras, contrárias aos reais interesses da nação portuguesa, e adversas à pacífica convivência existente entre patrões e seus empregados tão imbuídos no desenvolvimento do país no difícil momento que atravessamos face à difícil conjuntura externa, etc., etc., etc....”

Em conclusão: “lançados os foguetes, feitas as festas, alguém terá sempre de apanhar as canas”; ou ainda, mais apropriado para este caso, “depois de levantada a mesa, sempre alguém fica com as barbas untadas”. E foi o que veio acontecer.

Apesar de no dia seguinte todos termos voltado ao trabalho, uns mais envergonhados, outros menos, não podíamos ignorar que em termos de resultados, exceptuando a perda da produção de um dia de malhar no ferro por parte do patronato, os grandes perdedores do feito épico, haviam sido como de costume, os trabalhadores, que não viram concretizadas nenhuma das suas reivindicações, salvo o facto de, metade deles gozar o privilégio de terem passado três quartéis do vigésimo segundo dia do mês de Janeiro, do ano da revolução dos cravos de verga direita, que é o mesmo que dizer sem vergar a mola.

Nos quinze dias subsequentes nada aconteceu, e tudo parecia navegar num mar de rosas entre aquelas oito paredes. No entanto, as consequências tardias desta aventura não se fizeram esperar, já que, rapidamente, se concluiu que as tais figuras funestas de gabardina bege ou cinzenta, não tinham andado por ali apenas para se inteirarem do estado da arte de malhar no ferro, ou a medir os decibéis dessa acção que tanto agrediam as expostas membranas timpânicas! Assim, e quase todas as manhãs seguintes, e, sucessivamente, lá dávamos pela falta de mais um dos nossos! E, de sussurro em sussurro, lá se passava a notícia: “ a pide foi buscá-lo a casa esta noite e levaram-no para Caxias! Parece que pertencia ao partido dos comunistas e que esteve na génese da paralisação do outro dia. ”

Assim, em cada noite que chegava, eu, esperava a minha vez. Apesar de não ter qualquer ligação a esse tal partido, ou qualquer outro, bem sabia que, apesar da minha tenra idade, tinha sido um dos mais activos argumentistas na revolta dos enferrujados.

Ditosamente, a madrugada de 25 de Abril ocorreu, e, sem que eu soubesse porquê, a minha vez de passar umas “férias” na casa junto praia do cagalhão nunca chegou!

Por tudo isto, o dia 22 de Janeiro ficou gravado na minha memória.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O mundo dos outros.....


(... e eu apensar que este melro foi nosso governante, e que esteve a um passo de ser presidente desta republica dos papagaios, ora avaliem a sapiência e os dotes preditivos desta ave agoirenta)

As profecias falhadas do professor Zandinga do Amaral
por Pedro Correia, tirado daqui)

“Lembrei-me hoje bem cedo, enquanto caía o granizo: fez agora um ano, na noite de 15 de Janeiro de 2013, surgia em nossas casas, por cortesia da TVI, um senhor de cabelos brancos e olhos muito abertos, assustado e assustando com palavras que soavam a dobre de finados. 

Em entrevista conduzida por Judite Sousa, o professor Freitas do Amaral trocou por largos minutos a gravitas de catedrático pelo alvoroço do decifrador de conjunturas astrais, profetizando épicas pragas bíblicas sobre os frágeis ombros dos portugueses.

Disse nada menos que isto:

«[Em 2013 haverá] um agravamento muito grande da espiral recessiva.»

«O ano de 2013 só terá comparação, em dificuldades e perigo, com o de 1975.»

«A crise do sistema político português pode pôr o poder na rua.»

«Entre Abril e Junho/Julho, com a recessão a piorar, surgirá um tal sentimento de indignação que força o sistema político a reagir.»

«A hipótese mais provável é que o Presidente da República dissolva o parlamento.»

«É inevitável que haja eleições entre Abril e Setembro.»

«O PS tem grandes hipóteses de sair vencedor dessas eleições.»

Crédulo que sempre sou perante a doutrina dos eminentes vultos nacionais, anotei meticulosamente numa sebenta o que o ilustre professor entendeu proferir nessa noite memorável, bebendo-lhe a sapiência. E à sebenta fui regressando, 2013 adiante, para aferir o grau de acutilância de quanto fora dito em tom tão grave perante uma Judite provavelmente tão perplexa como eu.

Fui aguardando a queda do poder na rua, a dissolução antecipada da legislatura face à força indómita da luta popular, as eleições antecipadas e a emergência de António José Seguro como novo condutor e pacificador da nação. Fui aguardando o "agravamento muito grande da espiral recessiva" e recordando aquele remoto ano de 1975, em que Portugal esteve mais de uma vez a milímetros da guerra civil, com as armas empunhadas e os dedos prontos a premir gatilhos.

E eis que chega Agosto: em vez da anunciada campanha eleitoral para as legislativas antecipadas, surge nas manchetes a inesperadíssima notícia de que Portugal saía da recessão, após dez meses consecutivos de declínio económico. Volvidos mais uns meses, continuava o poder sem cair na rua, contrariando o vaticínio do douto entrevistado da TVI. Em compensação, caíam os juros da dívida, o Estado garantia antecipadamente o financiamento para 2014 e até as famigeradas agências de notação davam sinais de encolher as garras.

A "espiral recessiva" eclipsou-se do discurso político e, pasme-se, até o défice das contas públicas promete situar-se abaixo dos 5% - aquém da meta fixada por essas aves agoirentas a que se convencionou chamar tróica. Mesmo sem dissolução do parlamento, legislativas antecipadas e triunfo esmagador de Seguro nas urnas.

Quando o ano chegou ao fim, senti-me aliviado: afinal o mais parecido que tivemos em 2013 com a tomada do palácio do czar em Petrogrado foi a ruidosa confraternização entre polícias no alto das escadarias de São Bento - algo que nem o falecido Zandinga, com os seus dons divinatórios quase infalíveis, seria capaz de antecipar.

Guardei a sabenta no fundo de uma gaveta. Mas, pelo sim pelo não, já comprei um exemplar do Borda d'Água: homem prevenido vale por dois. E assim consegui escapar incólume à queda do granizo esta manhã.”