Mostrar mensagens com a etiqueta Génes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Génes. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Devaneios de verão



Coisas destas sim, Tiaguinho. Deixa-te lá de coisas como as que “aquilo que eu não fiz...”, porque, certamente, algumas fizeste. Todos fizemos, todos beneficiámos, uns mais que outros, claro, mas isso são coisas do mundo. Deixa as coisas da política, que tal como eu, parece que tens pouco jeito. Agora sobre “morenas” tiro-te o chapéu. Isto sim. Até eu me arrependo por, aquilo, que não fiz ou não faço!





Já este Luizinho, não. Com coisas destas, vai de mal a pior. Cheira-me a “machismo encapuzado”. Ainda bem que já não és militante do PCP. Se a camarada Odete Santos, ou mesmo a “louca” Ana Gomes te apanham com lamechices destas, não queria estar na tua pele. Talvez as novas estrelas da "esquerda" Rita Rato ou a Isabel Moreira, gostem! Então a denegrir a psicologia das mulheres, a explorar as suas contradições femininas! Isso não se faz camarada, por muito caviar que enfardes e alguns amigos que aldrabes...


quinta-feira, 4 de abril de 2013

Fazer anos de quê? E para quê....



Aos 4 de Abril do ano de nosso senhor jesus cristo de 1957, no Moinho do Balcão da Ribeira da Ponte Velha, distrito da freguesia de Santo António das Areias, do termo de Marvão; nasceu uma criança do género masculino a quem deram o nome de João Francisco. Filho legítimo de Manuel Maria Bugalhão, moleiro, jornaleiro, pescador e contrabandista; e de Luísa Carrilho Pires da Quinta, dona-de-casa, jornaleira, e mãe; neto pela paterna de Francisco Gonçalves Bugalhão, moleiro e contrabandista, e de Teresa Garraio, dona-de-casa e mãe de 10 filhos; pela materna de José Pires da Quinta, jornaleiro e jogador de cartas, e, de Joaquina Carrilho Serra, dona-de-casa, jornaleira, e mãe de 7 filhos.

Sou eu....

Dia de Anos (João de Deus)

Com que então caiu na asneira de fazer na quinta-feira! Cinquenta e seis anos! Que tolo! Ainda se os desfizesse…, mas fazê-los não parece, de quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse, que fez a mesma tolice, aqui o ano passado! Agora o que vem, aposto, como lhe tomou o gosto, que faz o mesmo? Coitado!

Não faça tal; porque os anos, que nos trazem? Desenganos, que fazem a gente velho: Faça outra coisa; que em suma, não fazer coisa nenhuma, também lhe não aconselho...

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los, queira ou não queira!

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Já que hoje é dia dos namorados:





.... e também, logicamente, dia de "namoro":

"Mandei-lhe uma carta em papel perfumado, e com letra bonita, dizia que ela tinha um sorriso luminoso, tão triste e gaiato, como o sol de Novembro, brincando de artista nas acácias floridas, na fímbria do mar! Sua pele macia era suma-uma, sua pele macia cheirando a rosas, seus seios laranja, laranja do loge, eu mandei-lhe essa carta. E ela disse que não!

Mandei-lhe um cartão que o amigo maninho tipografou 'por ti sofre o meu coração', num canto 'sim', noutro canto 'não'. E ela, o canto do 'não' dobrou!

Mandei-lhe um recado pela Zefa do sete, pedindo e rogando de joelhos no chão, pela Senhora do Cabo, pela Santa Efigénia, me desse a ventura do seu namoro. E ela disse que não!

Mandei à Vó Xica, quimbanda de fama, a areia da marca que o seu pé deixou, para que fizesse um feitiço bem forte e seguro, e dele nascesse um amor como o meu. E o feitiço falhou!

Andei barbado, sujo e descalço, como um monangamba procuraram por mim...; não viu, ai não viu, ai não viu Benjamim. E perdido me deram no morro da Samba!

Para me distrair levaram-me ao baile do Sr. Januário. Mas ela, lá estava num canto a rir, contando o meu caso às moças mais lindas do bairro operário. Tocaram a rumba e dancei com ela e, num passo maluco, voámos na sala, qual uma estrela riscando o céu. E a malta gritou: 'Aí Benjamim'!

Olhei-a nos olhos, sorriu para mim. Pedi-lhe um beijo! Lá lá lá lá lá, lá lá lá lá lá! E ela disse que sim...."


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Oxalá estejam todos bem, e que deus nos acompanhe...


Este Post é dedicado a todos os meus amigos, sejam eles médicos ou pacientes. E qualquer semelhança com factos reais (não) será “pura coincidência”. Mas demasiado sério, para que assim não seja levado... 

(Adaptado)

O ti Manel andava razoavelmente bem de saúde, e até ainda lhe arrumava uns tintos, até que a sua esposa a ti Maria dos Remédios, a conselho da sua filha “tontinha”, lhe disse:

“-Oh Manel, vais  fazer 70 anos, está na hora de fazeres um "chéqup" no médico.
- Para quê, se ando bem, respondeu o ti Manel!
-Porque nã sabes como tás por dentro, e a prevenção deve ser feita agora, quando ainda andas bem, disse logo a ti Maria.”

Então o ti Manel, para não fazer desfeita, lá foi ver um médico. O médico, sabiamente, mandou-o fazer Testes e Análises de tudo o que poderia ser feito. Duas semanas mais tarde, o médico disse que os resultados estavam muito bons para a sua idade, mas tinha algumas coisas que podiam melhorar. E então receitou:

Comprimidos Atorvastatina para a pontinha de colesterol, Losartan para proteger o coração e a hipertensão, Metformina para um princípio de diabetes, Polivitaminas para aumentar as defesas e dar força (?), a Desloratadina não fosse o Manel fazer alergia a algum dos medicamentos receitados. Como eram muitos medicamentos, tinha que proteger o estômago então ele indicou Omeprazol; e, já agora, pelo sim pelo não, um Diurético para aumentar a excreção das várias drogas receitadas.

E assim, o ti Manel, não duvidando dos vários diplomas expostos nas paredes do consultório do sábio Hipócrates, lá foi à Farmácia e gastou boa parte da sua Pensão em várias caixas requintadas e de cores sortidas.

No entanto, como ele no dia seguinte, não conseguia lembrar-se se os comprimidos “verdes” para a alergia, deveriam ser tomadas antes ou depois das cápsulas para o estômago, ou se devia tomar as amarelas para o coração antes ou depois das refeições, voltou ao médico.

Logo este deu-lhe uma caixinha com várias divisões, mas achou que o ti Manel estava muito tenso e algo contrariado. Receitou-lhe, então, Alprazolam e Sucedal para dormir e melhor descansar. Naquela tarde, quando ele entrou na Farmácia com mais receitas, o farmacêutico e seus funcionários até fizeram alas para ele passar pelo meio, enquanto, por dentro, sorriam de satisfação.

Só que o ti Manel, em vez de melhorar, foi piorando. Ele tinha todos os remédios num armário da cozinha e quase já não saía de casa, porque passava praticamente todo o dia, a horas marcadas, a tomar as pílulas.

Dias depois, o Laboratório fabricante de vários dos remédios que ele usava, deu-lhe um cartão de “Bom Cliente. Vendeu-lhe ainda, um aparelho para “tirar” a Tensão Arterial, e, deu-lhe uma máquina para medir “os” diabetes, um Termómetro digital, um frasco estéril para análise de urina e um lápis com o logótipo da Farmácia.

Só que, o ti Manel nas idas frequentes ao centro de saúde e à farmácia, em contacto com outros doentes, apanhou uma valente gripe. A minha tia Maria, como de costume, fê-lo ir para a cama. Mas, desta vez, além do chá com mel, chamou também o médico a casa. Ele disse que não era nada de grave, mas, para justificar a chamada, lá prescreveu o Antigripine para tomar durante o dia, e um Xarope com Efedrina para tomar à noite. Não fosse o diabo tecê-las e apanhar alguma pneumonia, receitou um antibiótico: 1 g de Amoxicilina de 12 em 12 horas, durante 10 dias; e como detectou uma pequena taquicardia, receitou Atenolol.

Pouco tempo depois, e por causa das resistências diminuídas, apareceram uns fungos, e depois herpes, o que o fez voltar à consulta, e o médico receitou Fluconazol e Zovirax.

Para piorar a situação, tio Manel começou a ler as bulas de todos os medicamentos que tomava, e ficou sabendo de todas as contra-indicações, advertências, precauções, reacções adversas, efeitos colaterais e interacções médicas e encontrou coisas terríveis. Não só que poderiam provocar a morte, mas que poderiam fomentar também arritmias ventriculares, sangramento anormal, náuseas, hipertensão, insuficiência renal, paralisia, cólicas abdominais, alterações do estado mental, e mais um monte de coisas terríveis. E com medo, voltou ao médico, que lhe disse para não se preocupar com essas coisas, porque os Laboratórios só colocavam essas coisas para se isentar de culpa.

- Calma, amigo Manel, não fique aflito, disse o médico, enquanto prescrevia uma nova receita com um antidepressivo Sertralina com Rivotril 100 mg. E como o Manel estava com dor nas articulações, receitou também, o Diclofenac, porque a felicidade tem que ser total, e a uma boa pílula, não há mal que a vença.

Nessa altura, sempre que o ti Manel recebia a Pensão, lá ia directo para a Farmácia, onde já tinha sido eleito cliente VIP.

Chegou uma altura em que o dia do pobre Manel já não tinha horas suficientes para tomar todas as pílulas, portanto, já não dormia, apesar das cápsulas para a insónia que haviam sido prescritas. Ficou tão mal, que um dia, conforme era advertido nas bulas dos remédios, bateu a “caçoleta”!

No funeral tinha muita gente, mas quem mais chorava era o farmacêutico.

Agora a ti Maria diz que, felizmente, mandou o marido ao médico em boa altura, porque senão..., com certeza, ele há muito que teria morrido!






"As minhas muletas deitei-as fora, a minha marreca já não me dobra. Ó senhor doutor esta doença só me dá para dançar!

A dor já não maça e eu não me canso, é cada guinada que eu até canto. Ó senhor doutor esta doença só me dá para dançar!

Faça qualquer coisa, que eu não tenho mais razões p'ra me queixar…

Já não emagreço nem fico gorda, e qualquer excesso deixa-me em forma. Ó senhor doutor esta doença só me dá para dançar!

O meu triste pranto ri-se com gosto, e o bem-estar é tanto que eu já nem posso. Ó senhor doutor esta doença só me dá para dançar!

A todo o mal do mundo dou bailarico, e até no futuro já acredito. Ó senhor doutor esta doença só me dá para dançar!

Gabo a má sorte do meu destino, e se vier a morte faz par comigo. Ó senhor doutor esta doença só me dá para dançar!

Faça qualquer coisa, que eu não tenho mais razões p'ra me queixar…"

quarta-feira, 25 de julho de 2012

II Encontro da Família Bugalhão (21/7/2012)

Era uma vez um moleiro chamado José Bugalhão que nasceu por volta de 1850. Casou com Teresa Gonçalves (Raposo), que terão nascido e residido em Pego Ferreiro – Santo António das Areias...


(Foto de Família dos participantes)


(Os manos: Francisco, Joaquim e João)


(Sobrinha Teresa com ti Emília)


(O Patriarca Francisco)

(Joaquim e Rita: Quase um século os separa)


(Joaquim e os seus 8 filhos)


(As manas Fernanda e Mª Teresa)

(São, Manuela, Tó-Zé, Felismina e Sandra)


Um pouco de ficção e de história, em memória de Francisco Gonçalves Bugalhão (1877 -  1953)
Por joão Bugalhão

Capítulo I

"Janeiro, é por natureza, um mês feio para os urbanos por causa da chuva. Mas um mês fundamental para aqueles que vivem nos campos, e que ainda sabem avaliar os favores do tempo.

Não nos dias que correm, onde as chuvas já pouco importam, mesmo aos rústicos, pois como todos sabemos, o cultivo já teve melhores dias, pelo menos neste país de sol e praia. No entanto, sempre que ocorre um inverno mais seco e uma primavera um pouco solarenga, quando chega o estio, e nos vemos ameaçados com a amofinação de não nos podermos banhar diariamente à grande e à francesa, lá se lembram os das cidades, que talvez não tivesse sido boa ideia terem andado a exaltar, que tinha sido bom o tempo do inverno, só porque não choveu.

Não foi o caso deste ano de 1920, pois que, dos quinze dias que este primeiro mês já leva decorridos, ainda não parou de diluviar. Até parece, que o poder divino se esqueceu de que há pobres que precisam de ganhar o sustento, que não têm uma seara nas costas, que pouco têm com que se cobrir, a não ser, o colmo dos seus casebres à noite, e a copa de alguma árvore durante o dia.

Acordou Teresa, mulher do moleiro, um pouco enjoada, não sabendo se, por noite mal dormida, ou porque terá chegado o dia de parir o ser que em si vem gerando há cerca de nove meses.

Xico, assim se chamava o moleiro do Pego Ferreiro, havia chegado a casa, quando já anoitecia, depois de mais um dia de freguesia, na distribuição dos talêgos de farinha, pelos muitos fregueses por onde haviam passado há duas semanas atrás a recolher o grão, que lhe dera origem.

Como de costume, chegava amontado no seu Macho preferido, que sabia o caminho da casa de cor, trazendo em fila indiana, uns presos aos outros, a sua vasta frota de tires muares. E também como era hábito, era elevada a taxa de alcoolemia que circulava nas suas veias e artérias. Proveito do seu bom trato com muitos dos amigos fregueses, que se orgulhava de ter.

Tivessem os vigias daquela época, efectuado uma daquelas operações de fiscalização e propaganda, tão na moda nos tempos de hoje e, certamente, o moleiro teria que recorrer aos préstimos dos confrades de então do seu vindouro bisneto Mário, senão quisesse ver a sua concessão de condução de machos e mulas confiscada, para além da elevada coima que lhe assentariam.

Sempre o vinho teve nomeada de tornar as pessoas mais inconscientes e belicosas, sobretudo se ingerido em quantidades exageradas, mas não era esse o efeito produzido com o moleiro Xico Bugalhão. Pois, parecia que quanto mais bebia, mais os seus humores pareciam benfeitorizar.

Só que Teresa, diga-se como quase todas as mulheres, sobretudo se de esposas se tratar, é que parecia não estar pelos ajustes. E ainda o moleiro não se havia apeado do seu anjo muar, e já ela irrompia em desmedido pranto, maldizendo e amaldiçoando o precioso néctar, e desejando que este já se tivesse esgotado…, ao que o moleiro respondia com o seu costumeiro humor: eu bem tento… mas, tu não me ajudas!

Mas em simultâneo, talvez guiada por inspiração religiosa matrimonial, lá o ia amparando até junto do lume que sempre crepitava na chaminé, para que este pudesse enxugar, em próprio corpo, a roupa ensopada da rega que tinha apanhado.

Enquanto Teresa e a filha mais velha Joaquina, procediam à acomodação da frota dos tires muares nas respectivas quadras, e ainda mal o moleiro se havia acomodado junto ao lume, já as suas duas filhas mais novas, Marizei e Genoveva a quem chamavam Conceição, se lhe atiravam para o colo, pois já sabiam que aquele serão seria longo e de muitas histórias e cantilenas.

Sabemos hoje que muitas das estórias e cantilenas infantis, mais não são que uma maneira graciosa de nos moldar social e culturalmente e, não raras as vezes, se profere que são verdadeiras e ardis estratégias de instrução sexual. Assim se diz do capuchinho vermelho, da gata borralheira, da branca de neve e sete anões, da carochinha e de outras agora mais hodiernas…

Não podemos extrapolar se seria essa a reflexão pedagógica do moleiro Bugalhão. Tenhamos em conta que eram duros aqueles tempos, tais como os de hoje, em que costumamos dizer que nem tempo temos para nos aliviar de fluidos produzidos pelo organismo ao longo do dia, tal o frenesim em que nos obrigam a viver.

O facto é que quando Teresa, a mãe, e Joaquina, a filha, se preparavam para entrar em casa, depois de cumprida a sua missão de arrumadoras, e sem que lhes tivessem dado qualquer gorjeta, puderam ainda ouvir o final da cantilena com que o moleiro mimoseava as filhas mais novas:

“…encontrei maria a cagar/ p´ra cima de uma travessa/ botê-lhe a capa p´ra cima/ maria caga depressa”…

Ficou Joaquina mais escarlate que o rubro do pendão português, então recentemente criado, e Teresa à beira daquilo a que futuramente se chamaria, um carga de nervos! Tal o baque sofrido por Teresa ao ouvir tal linguajar para as duas inocentes, que desatou novamente no carpido interrompido e vociferando contra a sua desditosa vida: "este homem desgraça-se a ele e a mim…, que não me leva o Senhor, deste mundo, etc., etc.…"

Levou Xico algum tempo a reagir ao aranzel da mulher. Mas, esta última oração parecia-lhe cair mesmo a propósito. Levantou-se, pousando Marizei com todo o afecto sobre o banco em que antes se encontrava sentado, e dirigindo-se à mulher pegou nela ao colo embaraçada e, tropeçando, dirigiu-se para o quarto contíguo, deitando-a sobre a tosca coberta que cobria a enxerga.

Depois, calmamente, dirigiu-se à mesa da sala, onde jaziam dois redentores em poses de via-sacra e, pegando-lhes com o apreço divino que tais estaturas mereciam, foi colocá-los, um de cada lado da mulher, verbalizando: "... vá Teresa, com qual queres ir para o céu? Com este, ou com aquele…? À entrada da porta Joaquina, já uma mulherzinha e as duas petizas, riam às gargalhadas. Viu-se a mulher do moleiro naqueles preparos e ante tal cena, sem se saber muito bem por quê, desatou também a rir…e, de repente sentiu uma dor intensa, como se algo se lhe arrancasse interiormente. Depois dessa, outras se seguiram, cada vez mais violentas.

Não cantarolava já agora o moleiro. Num impulso tinha pegado nos dois cristos e sem saber muito bem o que fazer, como sempre acontece aos homens nestas situações, andava de cá para lá com os ditos nas mãos, talvez, quem sabe, suplicando por uma boa hora…

Valeu-lhe a chegada de sua mãe, Teresa Gonçalves, chamada com urgência por Joaquina. Sempre as mães nos chegam nas horas certas e de apoquentação, sobretudo àqueles, que ainda têm a ventura de as ter.

Pouco faltava para a meia-noite, quando a avó Teresa, conseguiu retirar com vida das entranhas de sua nora, o segundo filho varão do casal de moleiros, que seria o único, pois o primeiro havia falecido da lua entripal, e a partir daí só germinariam filhas: Maria a que todos conheceram por Júlia, Luísa e Emília de uma só vez, e por fim Vicência.

Há horas de sorte na vida, tal como foi o caso da natividade desta criança; o ter nascido viva e sem deixar sequelas em sua ascendente, numa época em que a mortandade infantil e materna, não era aquilo que é hoje, pois quase sempre, o balanço entre vivos e mortos, quase se igualava a zero.

Teve sorte este moço, ao nascer vivo e valente, para as noites de geada e maresia que iria passar no futuro ao relento, certamente influenciado pelas práticas de preparação para o parto usadas por seu pai. Ou talvez, quem sabe, devido a alguma jura feita aos redentores, na hora da aflição.

Está agora ao colo de sua avó Teresa Gonçalves, mulher fumadora e boémia, de quem se diz, frequentar tascas e tabernas da época, para jogar a bago com os competidores masculinos e, claro, beber uns copitos. Onde seu marido, Zé Bugalhão, levava as crianças, que ficava a velar em casa, para que ali mesmo, fossem aleitadas. Pode por agora usufruir esse colo e, simultaneamente, da primeira cantilena que esta lhe vai cantando:

“…ai pirroli, pirroli, pirroli/ ai pirroli, pirroli, pirrolé…/ se não queres chocolate, nem aguardente/ bebes café”.

Um mês após este nascimento, e aquando de mais uma distribuição de farinha pela freguesia, apresentar-se-á, o moleiro, no registo civil de Santo António das Areias, dizendo que lhe nasceu um filho e que se chamará Manuel…"


Capítulo II

"Ao longo dos tempos, sempre se disse que um dos melhores ofícios era o de Cantoneiro. De quem se diz, com maleficência claro, só se verem trabalhar quando alguém passa na estrada, sem nunca se referir, no entanto, se o transeunto se fará transportar de veículo motorizado, ou circule simplesmente gastando as solas dos sapatos ou, montado em animal de quatro patas.

Se de veículo a motor se tratasse, quão bela seria a vida que Xico Bugalhão levaria como Cantoneiro assalariado da autarquia marvanense, seu primeiro ofício,  naquele final de século dezanove de 1895. Pois constava, que há apenas alguns dias havia chegado a Portugal, vindo de terras de França, o primeiro panhard & levassor. Do qual se dizia, que a sua primeira façanha, teria sido a de atropelar um incauto burro, que pastava sossegado nos campos do Alentejo.

Dizia-se ainda que, como lhe não haviam inventado buzina, certamente por isso, não pôde o quadrúpede ser avisado, começando o seu condutor, o senhor conde de avilez, aos gritos de: “arreda…arreda”, só que, não estando o competidor habituado a linguagem tão erudita, não percebeu, o que lhe seria fatal.

Contribuiu este facto, para que antes de tal invenção humana fosse baptizada de automóvel, carro, viatura, auto, popó, carriola, bate-latas, caranguejola, veículo, geringonça, automotor, ripolam, charrueque, calhambeque, carripana, bolinhas, etc., fosse o seu primeiro nome em terras lusitanas, o de “máquina do diabo”. Certamente, por ter atropelado o nobre animal, que no estábulo sagrado havia amornado aquele que seria cognominado como filho de deus dos cristãos, após ter alombado com sua mãe, da Galileia até Belém.

Xico Bugalhão era o segundo filho de José Bugalhão e Teresa Gonçalves (a já referida progenitora que, amamentava os filhos no intervalo de uma jogatana de cartas em plena "tasca"), o qual terá vindo ao mundo em meados dos anos setenta do século XIX. Quis o destino, que o seu primeiro ofício fosse de Cantoneiro de estradas do município, se tal se podia chamar às míseras carreteiras de terra batida que atravessavam o concelho de Marvão naquela época, onde ainda não havia chegado o alcatrão. Matéria preciosíssima no futuro, sobretudo, quando autarcas candidatos pretenderem ganhar eleições, lançando essa massa preta para os olhos dos ingénuos eleitores.

Não se fez velho nesta ocupação o Cantoneiro, pois como já sabemos de episódios anteriores, o seu futuro será o de contribuir para transmutar grão em farinha, do qual se fará muito do pão que matará a fome a estas gentes. Mas não se pense, ter sido por falta de predisposição para o remanso de que este ofício é apelidado, que Xico resolveu mudar de ramo, pois não terá sido esse, o fundamento. Aliás, não terá sido apenas um, mas dois os motivos relevantes a influenciar o processo de tomada de decisão, do futuro moleiro.

O primeiro motivo, já o havíamos aportado em episódios precedentes, que era a circunstância de nunca ter lidado bem com essa situação funcional, que é a de ser-se trabalhador por conta de outrem. Mesmo que esse outrem seja uma entidade abstracta, como é o caso do Estado, seja ele o central, ou o local como era a circunstância.

E bem podemos afirmar que esta imaterialidade, nunca terá tido uma aplicação tão adequada já que, há mais de um mês, os representantes locais marvanenses desse Estado, logo, os patrões do futuro moleiro, haviam abandonado as suas funções e responsabilidades, para as quais haviam sido “meio-escolhidos” “meio-nomeados”, e tinham ido às suas vidas, despedindo-se à espanhola, pois o governo regenerador do ribeiro, por decreto, os havia mandado às urtigas sem outra justificação que não fosse, a de os considerar incapazes, e meros gastadores dos poucos dízimos gerados por uma gente de desventurados e pelintras.

Para além desses predicados que o regenerador ribeiro utilizou, para destituir a legítima vereação municipal do magalhães, e extinguir concomitantemente o concelho de Marvão, integrando-o no de Castelo de Vide; dizia-se por estas bandas, à boca-pequena, que estes haviam sido ainda burlados pela oposição progressista do frenético (frederico) laranjo, ao prometer-lhes que estivessem sossegados em suas casas, que não levantassem ondas e, mantivessem na ordem as ingénuas e boas gentes marvanenses, que ele se encarregaria de os incluir na vereação futura do município castelovidense, logo que o seu partido ocupasse, por rotatividade, o poleiro da vila judaica. Só que tal nunca veio a suceder, porquanto os regeneradores, no poder, não estavam para aí virados, e como de costume, não cumpriam o acordado com o citrino.

O segundo motivo, tinha razões mais objectivas e menos filosóficas. Tinha pois a ver com uma das maiores pragas sociais de sempre desde que o mundo é mundo, ou pelo menos, desde que os romanos haviam passado a pagar aos seus colaboradores em sal, os serviços por estes prestados, denominando pomposamente, tal facto, de “salarium argentum”. Termo esse, que viria a ser reduzido pelos portugueses, abreviadamente, para salário.

E no reduzir é que estava o problema. Aliás, nem era bem o reduzir, até se poderia afirmar, com mais propriedade, que seria o reduzir à fórmula ínfima, isto matematicamente falando, e, o termo exacto era suprimir.

E com salários suprimidos, ou melhor, como se dizia por ali, jornas em atraso, já o Cantoneiro Xico Bugalhão leva quase cinco meses, sem que lhe seja dado a ver a cor do dinheiro para as sopas. Julho, Agosto e Setembro, quando o empregador ainda era o município de Marvão. Outubro e o que resta do mês de Novembro, cujas responsabilidades têm que ser imputadas aos de Castelo de Vide; que, apesar de se andarem por aí a gabar em discursos pacóvios, como foi o caso do pinto sequeira, o de ter sido um grande melhoramento a integração do concelho vizinho, o facto é, que continuou a não cumprir com as suas mais elementares obrigações, como seja as de pagar o tal salarium argentum aos seus empregados. Apesar de ter retirado dos cofres da Câmara de Marvão a quantia de um conto de réis, quantia que, naquela época, seria mais do que suficiente para saldar as jornas com esta gente trabalhadora.

Como já foi contado, andaríamos por essa altura, em meados do mês de todos os santos, menos o de são receber. E o Cantoneiro Xico, com outro seu camarada de ofício, estavam a endireitar as suas cruzes, depois de terem debelado, mais uma das valetas feitas pelas chuvas, na carreteira entre a Portagem e a sede do finado concelho de Marvão, perto do lugar das Ferrarias, quando repararam, que se acercava deles um grupo com cerca de uma dezena de cavaleiros a trote em suas cavalgaduras.

Arrazoavam alto, quase aos berros, com uma pronúncia estranha de ilhéus, e puderam os dois marvanenses ouvir claramente, um dos valetes a dizer para o do cavalo baio, de que não havia mesmo qualquer dúvida, que estes marvanenses estavam mesmo satisfeitos por pertencerem ao concelho de Castelo de Vide, e que tal como ele havia referido, para que constasse nos tempos futuros, tudo corria na melhor ordem e sossego. Bastava ver a consideração que revelaram estes dois trabalhadores, que até se puseram em sentido, assim que nos viram aproximar.

Ao ouvir tal arengo, questionou Xico Bugalhão o seu camarada, sobre quem seriam tais figurões? E o que fariam por estas terras esquecidas?

Ao que aquele respondeu:

- Atã…ò Xique, sã os nossos noves patrõs. Aquele éi o presedente da cambra de castel`vide, ô sequêra da costa, …e o papagai falante éi o secretare d`ele, andão nas elêçõs. Mas…os mal creadons, nein nôs desserem bom dîia, nein tã pouque q’ando nos pagavão…

Está agora Xico Bugalhão, ainda com a picareta na mão, olhando os facínoras judeus a afastarem-se velozmente.

As palavras do seu consorte de desventura, começaram a revoltar-lhe as entranhas e, atirando o seu utensílio de trabalho, violentamente contra a sebe, lá foi andando e dando conta de sua deliberação, para que também constasse em tempos futuros:

- A partir desse dia, não trabalharia durante toda a sua vida, para mais cabrão nenhum, nem que tivesse que expirar à fome…arre cos pariu!

(e assim cumpriu até final dos seus dias...)

quarta-feira, 13 de junho de 2012

2º GRANDE ENCONTRO DA FAMÍLIA BUGALHÃO

Via facebook do Luís:


"Boas tardes caras e caros familiares Bugalhão.

Como sabeis, no próximo dia 21JUL12, Sábado, pelas 13.00-13.30, terá lugar o 2º GRANDE ENCONTRO DA FAMÍLIA BUGALHÃO. Assim sendo, publico agora as informações e os procedimentos a levar a cabo para efectivar o evento:

1. Ementa (Restaurante "O Sever")

- Couvert: queijo de Nisa, salada de grão com bacalhau, ovinhos mexidos com farinheira;
- Sopa de hortaliça;
- Bacalhau à casa;
- Bochechinhas assadas no forno com batata assada e grelos salteados;
- Pudim da casa;
- Vinho regional, cerveja, refrigerantes, água, café, ginjinha e amarelinha;

Preços: € 20,00 Adultos; € 10,00 Crianças entre os 7 e os 11 anos (inclusive); Grátis – Crianças até aos 6 anos (inclusive).

2. Lembrança:
Tal como no ano passado, haverá uma lembrança para marcar a data (será novamente um íman para o frigorífico). Contudo, não faz muito sentido que uma família com 4 elementos fique com (e pague) 4 ímanes iguais. Assim, quando vos inscreverdes, para além do número de pessoas, dos nomes e das idades de cada uma, solicito que indiqueis quantas lembranças quereis, ou se não quereis nenhuma. O preço é de € 1,00.;

3. Podereis enviar as inscrições para luisbugalhao@gmail.com, ou publicá-la aqui no grupo. O meu telemóvel é 918 132 918, para alguma dúvida;

4. Quando vos inscreverdes devereis proceder ao pagamento do valor correspondente, através de transferência bancária para o seguinte NIB: 0018 0000 3577 8465 001 98

É opcional, mas se puderdes enviar-me um mail a notificar-me dessa transferência, facilitar-me-á o trabalho de compilação das inscrições e pagamentos.

5. Muito importante: as inscrições devem ser feitas até ao dia 08JUL12, Domingo. Após essa data só casos especiais serão considerados (peço compreensão para o cumprimento deste prazo, pois deveremos dar os dados ao restaurante e à artesã que faz as lembranças com essa antecedência);

6. Não haverá convites personalizados, à semelhança do ano passado, portanto, toca a passar palavra para os que não têm facebook.

7. Finalmente, envio um grande abraço a todos, mas um especial à Sandra Bugalhão Páscoa, à Conceição Bugalhão e ao João Bugalhão pela ajuda que me têm dado na organização. Não sou eu o festeiro: tem sido esta comissão de festas.

É tudo (e já é muito). Cordiais cumprimentos, Viva a Família Bugalhão!...

e até 21JUL12.

TA - Ilustro esta publicação com algumas das nossas matriarcas. A do centro, a Ti' Júlia, deixou-nos este ano... é uma pequena homenagem que lhe faço. Ela também estará connosco este ano."



sábado, 21 de janeiro de 2012

Não estar, mas ficar na memória...

O clã Bugalhão perdeu hoje mais uma das suas raízes. Maria, aquela que todos conheciam por Júlia, partiu.

Júlia ou Maria Júlia, era certamente uma das mais lúcidas memórias da família, detentora de uma “memória de elefante”, foi ela que me passou muitas reminiscências do passado colectivo da nossa família. Para mim, ela terá sido como uma segunda mãe.

Sei que algures, um destes dias nos voltaremos a encontrar. Sei também, que para além de me repetir todas as estóreas que me contou na minha infância, não deixará de me presentear com mais um bocadinho da tal “coalhada”, pela qual eu suspirava, enquanto fazia o seu queixo mole...

É só mais um pouquinho na roda da vida...

“ai piroli, piroli
ai piroli, pirolé
se não gostas de agurardente com chocolate
bebe café...”


Hoje é um dia triste.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Eduardo Galeano fala do mundo novo...

Preâmbulo do Luís Bugalhão: Lembrei-me de Espinosa. Lembrei-me de José Saramago. Até esmaga, de tanta clarividência! Agora, como fazemos 'o mundo que é', parir o 'mundo que será'? Ou seja, como fazemos das ideias ('intelecto') algo efectivamente ligado às 'tripas'? Este é que é o desafio. Nunca pensei dizer isto, mas 'estou cheio de deuses por dentro'.


quinta-feira, 20 de março de 2008

RENDIMENTOS DO CAPITAL GENÉTICO...

Escrito por Luís Bugalhão


boas tio.

hoje estou com uma daquelas telhas qu'até zóne nozóvidos.

passei a noite às voltas na cama, cheio de saudades do meu pai, cheio de rancor contra a vida que nos prega tantas partidas de morte.

precisava mesmo dele. preciso dele. mas ele não está cá. foi-se, num inverno frio, tornado ainda mais gélido pelo seu desaparecimento.

sabes que sou incréu, e por isso, como não posso falar com o pai chico, falo com a sua memória e com quem dele está mais próximo, na geração acima da minha...

que raio de vida esta...

dei por mim a pensar nas falhas dos neurónios e das sinapses. falhas castradoras de lembranças, de episódios, de estórias. brancas que me envergonham por não conseguir evitá-las.

é que queria mesmo estar com o meu pai!

queria ouvi-lo a dizer-me que '... isso é conversa de chacha.'. queria escutar-lhe as conversas da guerra para onde foi enviado pela vida tão cedo. tão moço. e já tão velho também. queria vê-lo novamente a abraçar a mila e a dizer-lhe '... se me derem um neto, agarro em ti e levanto-te até ao céu!...'. os netos, que a são e eu lhe demos e ele nunca conheceu...

ele que, para muita gente, não passava dum insensível, sem cuidado nas palavras que escolhia para dizer verdades... esse bruto, que também tinha coração de menino. ainda. naquela altura, meses antes de nos deixar, derrotado por um inimigo que nunca lhe mostrou a cara e que ele, por isso, não podia combater. um coração de menino que cedo aprendeu a empedernir a emoção, a desviar a conversa para o sisudo, para não sofrer ainda mais com a injustiça dos que o rodeavam, e só viam rudeza onde havia extrema sensibilidade. e por isso o abraço à mila que, surpreendida, se sentiu apertada e alevantada do chão pelo sogro... no último almoço dos bugalhões, em frente à família toda, em setembro de 1990. bom que a vida lhe tenha dado momentos destes, de libertação dos espartilhos e das capas de duro que vestia para se proteger e para proteger os que amava... mesmo que não lhes parecesse, aos que amava.

se calhar somos todos um pouco assim, os bugalhões. se calhar não estou a falar dele, estou a falar de mim. mas o que eu queria mesmo era falar com ele.

RAI'S PARTA ESTA MERDA TODA!

ontem foi dia do pai e eu queria falar com ele e não posso. queria tê-lo aqui, na net, neste blog de que seria um colaborador essencial, neste mundo da informação global a que ele aderiria, já reformado e com tempo para se dedicar também às escritas e às leituras...

ontem foi dia do pai e eu queria tanto ter falado com ele. mas não posso.

por isso falo contigo. que sendo meio-irmão, fazes muito bem as vezes de meio-pai. recebe um abraço sentido de bom dia do pai, deste teu meio-filho.

até amanhã, em sto. antónio, Marvão, terra linda e agreste, mística e fria, rude e sensível. como nós. como o meu pai.

e eu queria tanto falar com ele...

domingo, 3 de fevereiro de 2008

RENDIMENTOS DO CAPITAL GENÉTICO...

Escrito por: Mata Borrão

Era Agosto, no fim da tarde longa, quase escuro, quase noite.
Numa pequena calçada que subia do rio Sever até à estrada da Ponte Velha, um magote de gente alegre, muito alegre mesmo, sobe lentamente o caminho.

Entre eles o Manel, felicidade estampada no rosto, pequeno e enrugado, os olhos pequeninos de riso…Todos riem, todos falam, a alegria é tanta, que até entontece.
De repente, o Manel agarra na neta mais velha por um braço e desata a dançar e a cantar.


A eira onde talvez tivessem dançado pai e filha de Chico...


Todos param a aplaudir, a comentar e a rir ainda mais.
A dança corre periclitante, pois a calçada é inclinada. A cantiga é a “do cigano”.Conta a história da vida dele, que não corre nada bem, ao que parece…
De entre todos, vê-se o Chico, contente da vida por ver o pai e a filha a dançar, mas… não me lembro da cantiga. Como eu gostava de me lembrar da cantiga do cigano, que o Manel cantava, enquanto dançava com a neta mais velha e todos os bugalhões riam, comentavam e aplaudiam.



Restos de um Marvão esquecido...e de sonhos perdidos.


Que feliz eu era, e não sabia.


...e sempre o Sever: Testemunha dos tempos


sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

RENDIMENTOS DO CAPITAL GENÉTICO...

Escrito por: Mário Bugalhão


Tristes, muito tristes.
Assim eram as pessoas que encontrei, ao fim do dia, no percurso que fiz entre o trabalho e a estação de comboio.
Nem um sorriso apressado.
Apressados, só os corpos em busca do refúgio da chegada.
Como é possível viver assim?

Já na carruagem, pessoas de olhos fechados a fingir que dormem, e outras, de olhos abertos a fingir que vêem.
Faz de conta, esta viagem.

Toca a campainha das portas, anunciando a chegada a mais um destino.
As pessoas saem, de cabeça baixa, acotovelando-se, não vá a do lado dar o passo maior.
Entra ar puro enquanto as portas se mantêm abertas.
Perco a esperança.
Dos novos companheiros de viagem que entraram, nem um sinal de alegria.
Todos trazem no rosto, o sorriso ao contrário.
Paisagem esta, bem mais agreste e deprimente, do que aquela que se vê nas fotografias deste episódio 4º.
Será que as pessoas ficaram em casa e, mandaram as suas tristes sombras trabalhar?

Lá vai o comboio, massajando o corpo, adormecendo o pensamento, seguro no seu carril.

Era assim o macho do Ti Manel Bugalhão, seguindo o carril, quando lavrava.
Cabeça baixa com o olhos a acompanhar.
Focinho babado, beiças arregaladas, e os dentes a luzir.
Parecia até sorrir.
Se calhar, feliz por não ser burro.
Algumas das minhas companhias, da carruagem onde vou, teriam inveja do sorriso do macho.

Lá ia ele, rego após rego.
-Anda macho d`um cabrão.
-“Pa riba, pa riba macho”, gritava.
Ia abrindo feridas na lavrada, e ao mesmo tempo, estendendo uma toalha de terra fina, escura e fresca, que servia de festim, para os pássaros não convidados.
-Anda corno, dizia prolongando os ós.
-“Ó baixo, ó baixo”, instruía o Ti Manel, sempre que o bicho se distraía, e o rego entortava.

O céu estava parado.
O vento também.
O sol, ardia no lombo do macho e nas goelas do homem, vingando-se dos momentos em que as nuvens o não deixavam passar.
Um convite.

Pararam debaixo de uma oliveira.
O macho para retemperar as suas forças, o Ti Manel, para matar o vicio e preparar um cigarrito.
Tabaco numa mão, mortalha na outra, corpo imóvel, e muito cuidado para juntar os dois ingredientes, não fosse a mão falhar.
Enrolava, apertava, e por fim, sobrava sempre um pouco de saliva que o sol não secara, para selar o “paivante”.

Isto é que é vida.
O sol, o campo, a paz, e o descanso merecido
Mas o melhor de tudo, era sentir o fumo do cigarro a deslizar pela garganta, até lhe alugar os pulmões.

Pára o comboio.
É a minha estação.
Levanto-me com cuidado (tive a sorte de fazer a viagem sentado), empurra daqui, empurra dali, e lá vou eu, cabeça levantada, olhar em frente, arriscando-me a levar uma pisadela por mostrar tal altivez; mas é o risco que corro por não estar triste e de cabeça baixa, apesar de ter motivos para isso...