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sexta-feira, 31 de julho de 2015

Para o Pedro (passado este tempo parece um sonho)...


Há 4 anos por estas horas, um amigo na flor da idade, passava uns maus momentos, tinha sido vítima de um “pequeno” pontapé da vida. Pequeno hoje, passados estes anos. Na altura foi um grande chuto.

Hoje ele anda por aí graças aos avanços tecnológicos da saúde, à sua família, aos seus amigos mas, sobretudo, à sua força de lutar pela vida e vontade de vencer. Passados que são 4 anos sobre esse incidente de percurso, recordo aqui, algo do que escrevi nessa altura.




Este é o momento amigo:

Esta é a oportunidade do golo que não podes falhar
Esta é a corrida que não podes interromper
Está à tua espera o copo que te falta beber
E há uma música que ainda te falta cantar

                                                         E nós estamos aqui...



Meu caro, espero que ao receberes esta minha missiva, te encontres no melhor estadio possível, que nós por cá vamos indo assim-assim, como dirão alguns; ou bem graças a Deus, dirão outros.

Soube que o meu amigo iniciou há dias uma viagem, que todos pensámos que seria breve, mas parece que afinal, a coisa se tem prolongado. Por isso, quero desde já dizer-te, que todos nós lamentamos a tua ausência, e que, diga-se em abono da verdade, até não estamos muito agradados contigo, por disso não nos teres dado conhecimento antecipado, pois, como sabes, qualquer um de nós te teria impedido dessa deliberação. Mas como somos mesmo teus amigos, quero desde já esclarecer-te que estás completamente desculpado, pois aos amigos tudo se perdoa.

Antes de te dar conhecimento, do que me têm confidenciado alguns amigos durante a tua ausência, pois sei que tens tido notícias daqueles que te são mais queridos: a tua família; gostaria de te dar algumas pequenas notícias, que gostarás de saber, como pessoa informada que sei que gostas de ser.

Assim, em primeiro lugar não posso deixar de te transmitir que o nosso “benfas” continua igual a si próprio, inimitável, tal qual como no ano passado. Num dia promete mundos e fundos, no dia a seguir é banal. Vê bem que até empatou com os galos de barcelos! Depois de ter estado a ganhar por dois... O jesus está cada vez mais ateu! Por isso é que, não fosse a imensa tristeza que me dá cada vez que vou ao teu Blog e vejo que ainda não tiveste oportunidade para nos dares notícias tuas, até ficaria satisfeito pela triste figura em que lá o postaste no teu último artigo. Só acho que lhe falta as tais orelhas de asno, que se usavam no tempo da outra senhora, para estar perfeito! Este ano só vamos à catedral quando tu regressares...

Em segundo lugar, parece que tua “ grupa” cancelou a digressão prevista para Agosto aqui pelo nordeste alentejano. Mas tanto quanto consegui saber, os programas para Setembro estão intactos e requerem a tua presença com a maior brevidade possível. Ora sabendo eu, da paixão daquela gente pelo projecto, só me resta interceder junto do meu amigo, para que não os faças esperar muito mais tempo e regresses quanto antes, pois a sua ansiedade pelo teu regresso, garanto-te eu, que é imensa.

Gostaria ainda de te dizer, que o nosso “jantar tortulhano” mensal de Agosto foi adiado, para te darmos mais algum tempo para programares o teu regresso com calma. O meliante do Bonacho sempre na ironia, como tu bem sabes, anda dizer que, em vez de ervas e milho para alimentar os patos e o galo, os anda a enfrascar com “hormonas de engorda”, não vás tu aparecer aqui a qualquer momento e, os maganos, estejam só com as penas e osso. Eu até já lhe disse que o não fizesse, pois se tal acontecer, nós até nos prestávamos a romper a tal promessa, e iríamos ao “primo de marvão” comemorar o teu regresso, com uma festita de arromba. Por isso imagina lá do que nós somos capazes, só para te termos junto de nós.

Quanto ao grupo de amigos que desde o dia trinta do passado mês de Julho, quase diariamente, têm perguntado pelo meu amigo, não resisto a deixar aqui os seus nomes, com o único propósito de te transmitir uma força imensa, e incentivar o teu regresso para junto de nós. E já agora, e a teu belo gosto, todos te enviam um abraço do tamanho do mundo, com alguns beijinhos á mistura:

Adelaide, Antero Ribeiro, António João Raposo, António Machado, Bicho, Bonacho, Bonito, Carlos Sequeira, Catarina Bucho, Céu Garcia, Chaparro, Conceição Bugalhão, Enf.º Oliveira, Escarameia, Fátima Dias, Fernando Gomes, Garraio, Gomes Esteves, Hermínio, Jacinta Fernandes, João Carlos Anselmo, João de Brito, João José Escarameia, Joaquim Barbas, Joaquim Chaparro, Jorge Miranda, José Domingos Felizardo, Júlia Barradas, Leonel, Luís Barradas, Luís Bugalhão, Luísa Bugalhão, Magafo, Manuel Andrade, Manuel Gaio, Maria Manuel, Mário Bugalhão, Nani, Nuno Mota, Nuno Pires, Paula Guedelha, Paulo Mota, Paulo Estorninho Mota, Pedro Graça, Sofia Anselmo, Tó Caldeira; e outros que por falha minha não registei...

E deste teu amigo recebe tudo, embora o que eu te quero dizer a sério, é que estou à tua espera para te abraçar, para me contares pormenores da viagem, e para cumprirmos a tal promessa de caminhada em tempos combinada: a de irmos à vila de Fátima. Mas não penses que será apenas ida …, vamos e regressamos a pé!

Deste que muito te considera

João Bugalhão



terça-feira, 9 de junho de 2015

Se hoje é um dia para lembrar arquivos...


... e se recordar é viver, aqui fica a minha contribuição com o Post que me iniciou nesta coisa da blogosfera, publicado em Dezembro de 2007:


"COMO NASCE UM BLOGUE

…a meu pai (1920-2006)

“Decorria o ano de 1956, já havíamos passado o solstício de verão e as noites corriam longas e cálidas, celebrando-se nesse dia segundo o calendário gregoriano, a festa de S. Pedro. Manuel, homem de pouco mais de trinta anos de idade, caminhava ao longo das margens da ribeira, que meia dúzia de quilómetros mais abaixo chamavam de rio Sever, que o conduziriam ao moinho do Fraguil, onde morava. Cismava sobre os últimos meses da sua vida falando baixinho como era seu hábito, após mais uns copos com os amigos na tasca do Chico Videira. Esperava pelas duas horas da manhã, hora que, juntamente com mais meia dúzia de companheiros, pegaria na sua carga de café contrabandeado que iria entregar perto de Malpartida de Cáceres.

Luísa, sua mulher, havia-o deixado, depois de mais uma desavença entre ambos e, juntamente com a filha haviam-se acolhido em casa arrendada na Martela, do outro lado da ribeira, cerca de mil metros de distância em linha de tiro de onde Manuel agora se encontrava. Francisco, o filho mais velho casal, então com quinze anos de idade, já há muito que trabalhava em casa de patrão para ganhar a vida, que os tempos não iam fáceis.

Várias haviam já sido as suas tentativas de ajuntamento, mas desta vez, Luísa, parecia não estar pelos ajustes. Ele bem tentava, pois todos os dias, à tardinha, esperava Conceição, assim se chamava a filha do casal desavindo, quando esta regressava da escola e lhe entregava um pãozinho, incumbindo-a de dizer à mãe que voltasse para casa, na esperança, que tal gesto pudesse seduzir Luísa, mas até esse dia sem qualquer resultado prático. Apesar do pão não ser devolvido, também os sinais de que Luísa estivesse para quebrar, tardavam em aparecer.

Pouco passava das dez horas da noite, hora aquela de lusco-fusco, em que todos os gatos parecem pardos e, Manuel, sentiu como que um calafrio que lhe percorreu a espinha, dorida dos trinta quilos de café que tinha carregado a noite passada e depois de mais uma fuga dos guardas-fiscais, que por pouco, o não apanhavam ali bem perto do secadeiro-da-bruxa. Mas aquele calafrio, não lhe pareceu de dor, nem tão pouco de frio, pois a noite estava quente, e as dores, sabia ele como lhe mordiam. Demorou ainda alguns segundos a perceber o porquê, mas, no momento seguinte, a coisa ficou clara no seu pensamento, pois, certamente, se devia à lembrança de corpo de mulher, que há três meses não tocava, e que de repente lhe aflorou, algures na sua cabeça.


Sem perceber, como que por automatismo, encontrou-se a saltar as passadeiras que o levariam à outra margem da ribeira e, sem saber muito bem porquê, já subia, por entre as giestas floridas, a encosta que o haveria de levar às proximidades da casa onde vivia Luísa…”

domingo, 7 de junho de 2015

Regressar a Valência (de Alcântara)...


CP Valência de Alcântara 0 – GD Arenense 3



Equipa do GDA - De pé da esquerda para a direita: Daniel Conchina; Pedro Jesus, Nuno Macedo, Ricardo Ramos, Carlos da Luz, Carlos Bernardo, Nelson Nunes, André Pires, Quim Silva, João Bugalhão e António Garraio. Em baixo pela mesma ordem: Filipe Guedelha, Henrique, Cascavel, Luís Siva, Guilherme Silva, Joel Vilhalva e Pedro Vaz.

( faltam na foto Luís Costa e Luís Macedo)


Fará por estes dias 30 anos que orientei pela primeira vez, uma equipa de futebol sénior do Grupo Desportivo Arenense, decorria o ano de 1985 e foi em Valência de Alcântara. Parece que foi ontem! Nessa altura eu era um jovem de 28 anos, tinha na equipa jogadores 7 e 8 anos mais velhos que eu. Agora tenho 58 e, ontem, tive o prazer de lá voltar, e liderar uma equipa de jovens que ainda nem eram nascidos quando eu lá estive pela primeira vez. O tempo passa, ou nós passamos pelo tempo, e quase não damos por isso. Podem por isso imaginar o misto de emoções que ontem ali vivi!

A coisa começou assim: no passado dia 30 de Maio recebo um telefonema do meu amigo António Garraio que me dizia que, dali a uma semana, a 6 de Junho, o Ayuntamente de Valência de Alcântara iria inaugurar um piso sintético do seu Campo de Futebol e que, fazia questão de convidar uma equipa do GDA para um amistoso, com a nossa congénere cacerenha.

Só que o GDA não tem futebol de 11 sénior há 10 anos. E por isso logo lhe disse que não seria fácil, e eu, só estaria disponível, para orientar a equipa dentro das 4 linhas. Para a organização, não contassem comigo. Estava cansado de dar para esses peditórios, e não me sentia nada motivado e disponível.

Foi aí que o Garraio começou os seus contactos: Direcção do GDA (Luís Barradas), Jorge Rosado, Nuno Pires, e penso que posteriormente o Luís Costa também acabou envolvido. Foram estes 4 amigos que, em menos de uma semana, conseguiram mobilizar cerca de duas dezenas de atletas do concelho, surpreendendo muita gente, nomeadamente, sobre a sua existência, e que andam espalhados por aí pelas diversas equipas do distrito. E outra dezena ficou ainda de fora que, por motivos pessoais, não puderam estar presentes. É caso pra dizer "... o homem sonha a obra nasce!"

Isto é, cerca de 30 jogadores, 80% com ligações ao concelho de Marvão, foram “descobertos” em 6 ou 7 dias. E ontem, dia 6 de Junho de 2015, vestidinhos a rigor, com as cores azul e branco do GDA, entraram no municipal de Valência de Alcântara, para estrearem o seu novo piso, para representarem o clube, o concelho de Marvão, o distrito de Portalegre, e o próprio país Portugal.        

Sobre as peripécias do jogo não vos vou contar muito. Foi pena ver pouca gente do concelho nas belas bancadas que emolduram o campo. Só vos digo que o comportamento de fair-play, das duas equipas, foi exemplar! Nem uma única quezília em 90 minutos. Até eu, nunca a tal tinha assistido no passado! As duas equipas limitaram-se a jogar a bola de cá para lá e, de lá para cá. Nem dos árbitros tenho notícias a não ser, da amena cavaqueira que com um mantive no final do jogo, durante um belo petisco que nos presentearam, não sobre o “partidaço” que se havia disputado, mas sobre a sua paixão pela língua portuguesa e suas dificuldades.

No final do jogo o GDA acabou por ganhar por 3 – O com golos de Ricardo Ramos, e André Pires (2). E que golaços deste puto maravilha (atenção olheiros, abram a pestana) , a quem toda a plateia, imediatamente, começou a apelidar de “pequeño messi”. Mas se este jovem, e outros têm agora 18 -19 anos, também outros menos jovens deram o seu contributo, alguns já na ternura dos 40. E que bonito foi ver combinar a experiencia e a juventude! O FUTEBOL é um jogo maravilhoso, e não precisa de muita conversa para ser jogado. O resultado só poderia ser um: Muito Bom.

Porque participei eu nesta actividade? Em primeiro lugar, pela paixão e pelo prazer do futebol e pelo desafio que me foi lançado pelos amigos em cima referidos. Em segundo lugar, para tentar sensibilizar os responsáveis políticos e desportivos de que, talvez, o futebol sénior no concelho Marvão merecesse uma oportunidade sustentável e de acordo com a realidade.

Se valeu a pena? "... vale sempre a pena se alma não for pequena". A primeira pedra está lançada. Quem vai atirar a próxima?

- Arrumação tácita da equipa do GDA:

- As duas Equipas para a posteridade

- Equipas perfiladas para início do jogo

- Fases animadas do jogo


- Aspecto bem composto da bancada com as autoridades política

- Foto com 6 anos: Já em 2009 se previa que este menino (André Pires) daria um bom jogador 

Nota Final: Um bem haja a todos os que participaram nesta iniciativa, e que me fizeram reviver 30 anos dedicados ao desporto rei.   

sábado, 30 de maio de 2015

Memórias com 50 anos...




(Texto actualizado)

Ao primeiro olhar, um observador mais ou menos atento na imagem, dirá que é um retrato de um dia de festa familiar. Não será necessária muita perspicácia, bastará ver o ajuntamento de duas dezenas de pessoas, as vestes que envergam as criaturas, e, um tocador com a sua concertina na parte superior do retrato. Ninguém, no campo, que é o contexto da cena, se engalanava assim há cinquenta anos, requisitava um músico, se não fosse para uma solenidade importante. Atente-se, por exemplo, no homem jovem na primeira fila que até usava uma gravata de galã da época, residia certamente em meio urbano e teria vindo aqui por uma esperança muito especial, sabemos que se chamava joaquim estanqueiro, e já não pertence ao mundo dos vivos ao tempo em que escrevo este artigo. Pela mesma óptica podemos concluir que, os restantes são na sua maioria gente rústica, que ainda vive por ali, apesar das vestes festivas que ostentam. Provavelmente as melhores que tinham nas suas arcas e cabides, e que as vestiram, propositadamente, para uma qualquer celebração.

O céu aparece cinzento, mas que de facto estava azul nesse dia, e ocupa toda parte superior direita da imagem que, em realidade, é a superior esquerda. O local de implantação da casa parece ser o cimo de uma pequena colina que só tem esse mesmo céu por limite. Ninguém dirá que, aqui está uma família em que a maioria dos membros, são descendentes de moleiros de moinhos de água com rodízio, habituados a viver em vales junto às ribeiras e que, ainda há uma década atrás, faziam da transformação do grão em farinha o seu meio de subsistência. O anfiteatro da pose é uma escada com doze degraus que servia de acesso ao piso cimeiro da habitação onde viviam pessoas, o piso térreo tinha os alojamentos dos animais. O corrimão direito dessa escada, à esquerda da imagem, está uma planta que, por mais que fosse cortado, sempre ali crescia novamente com as suas lindas flores roxas , chamávamos-lhe  "goivo" , ao seu lado está uma moça casadoira, de seu nome rosa, como se de propósito. 

Surpreendentemente, a imagem, é dominada pela figura de um homem que ocupa quase, a corpo inteiro, todo o flanco esquerdo da representação. Veste uma camisa que será provavelmente branca, calças escuras com o botão de cima desabotoado para não lhe apertar a barriga que nunca teve. Curiosamente não está a fumar. Ele, que raramente se deixou retratar ao longo da sua vida. Tinha com as fotografias a mesma relação que mantinha com as pessoas: distância e poucas intimidades. Possivelmente aqui, aos 45 anos de idade, foi a terceira vez que se deixou apanhar pela objectiva de uma qualquer kodak. A primeira teria uns dezanove anos, num dia de pescaria na herdade dos pombais ainda em casa de seus pais, na companhia de alguns homens influentes do concelho onde residia; ainda tentou esconder-se, mas foi apanhado pela objectiva. Na segunda vez teria 40 anos e aconteceu na povoação de Torres Novas, onde fazia uma “fega” de colheita de azeitonas, em pose com a sua mulher, filha e filho, para enviar para o seu filho mais velho matar saudades em vez de pretos, nas terras de Angola onde andava a defender a pátria; e agora esta, mostrando uma postura como se fosse profissional da imagem. Sim senhor. Não daria muitas mais hipóteses, no futuro, aos retratistas.

Este homem chamava-se manuel. Foi contrabandista desde os 8 anos de idade, mas também foi moleiro, pescador e trabalhador rural sazonal. Esteve preso em Espanha no pós-guerra civil, mas também em Portugal por ter sido apanhado pela venatória a apanhar peixes no rio para matar a fome. Por esta época era um pequeno agricultor de batatas, feijão, couves; e alguma parca pecuária composta por meia dúzia de galinhas e coelhos que, por essa hora, já alguns estarão em panelas ao lume para servirem de banquete de final de festa. Ainda não arranjou dinheiro para comprar uma vaca leiteira para seu sustento e dos seus, mas isso irá acontecer em breve. Com os rendimentos do leite e das crias, há-de pagar a telescola de seu filho mais novo, e arranjar dois contos de reis para comprar a mobília de sua filha que irá casar daqui a dois anos, e que aqui a vemos, com dezoito anos feitos recentemente: é a primeira moça da direita da imagem, para quem começar a contar de cima.  

Manuel tem à sua esquerda a sua mulher de sempre, luisa era o seu nome. Poderá parecer que tem a sua mão direita pousada no ombro de seu marido, pura ilusão. Ela nunca o faria em público, e ele jamais admitiria tal intimidade, nem que se tratasse de um dia muito especial como era o caso, o serem padrinhos de baptizo do seu primeiro neto. Mesmo atrás de si, ligeiramente à esquerda, está a sua irmã maria, a quem todos tratavam por ti júlia, parece triste e é verdade, o seu filho mais velho anda na guerra, e na guerra mata-se e morre-se. Ela sabe isso.

Ao lado de luísa, está a sua comadre jacinta, que tem logo atrás de si as duas filhas recém-casadas. Recém-casadas é uma forma de dizer porque dormem com homem a que chamam de marido, mas de facto, apenas se ajuntaram a eles, que era o termo que então se usava. A da direita da imagem chama-se maria josé, tem ao colo o seu filho teodoro; ao seu lado direito está a sua irmã mais velha maria, também ela já foi mãe há cerca de cinco meses do rebento dela e do retratista de serviço nesse dia. 

Outra curiosidade da imagem diz respeito à paridade de género que parece ter tido aqui mão divina: a cada homem a sua mulher, como manda a lei do deus aqui dominante. Já que, se bem contarmos, podemos divisar perfeitamente oito varões e oito fêmeas entre mulheres e moças. Existem no entanto quatro crianças de colo na imagem, às quais, pela simples observação, não poderemos atestar se serão meninos ou meninas. No entanto, sabe o autor que, a esse respeito, o tal deus que dizem que tudo o que fez, e faz, ser bem feito, não manteve aqui a regra da equidade que tanto se diz apregoar, e quis privilegiar, como quase sempre, o género masculino, que ficou a ganhar por três contra uma. 

Fica ainda por perceber porque sendo também deus, tradicionalmente, mais reclamado pelos da direita, aqui serão as crianças do centro, o luís, e a da esquerda, a esperança, que estão ao colo de suas mães maria e gertrudes respectivamente, a engrossar a partir desse dia o rebanho dos tementes a deus, quando na igreja da paróquia próxima, receberem o sabor amargo do sal da vida e a santa água benta que lhes escorrerá pelas frontes e as limpará do pecado original. Se se manterão fieis crentes até ao fim das suas vidas, ninguém poderá adivinhar, só deus saberá e, esse, não consta que o tenha dito a ninguém. Já as crianças da ala direita da imagem apenas estão aqui porque tiveram que acompanhar os seus progenitores.

A parte superior do retrato, digamos que a retaguarda do cortejo e como se fosse a sua protecção,  é composta por cinco criaturas do género masculino: quatro adultos e um rapaz. O primeiro da esquerda da imagem era conhecido por chico padeiro, era marido da ti julia; ao centro o já mencionado tocador com a sua concertina, tendo como guarda-costas seu pai joaquim do covão, “ toca também o mê francisco, nã toca? Não sabemos ti jaquim, a gente nunca o ouviu, costumava responder a sua cunhada luísa!” Mas nesse dia tocou e dou para sentir que seu pai tinha razão. E para acabar de compor o ramalhete, duas criaturas que, até agora, nos não mereceram qualquer referência: o homem mais em cima à direita, e a figura enigmática do rapaz que está por de trás de si que mais parece um mastro de bandeira. O homem será certamente o bom romeiro, como na história do frei luís de sousa. Só que aqui, não será o romeiro a responder quando a pergunta lhe for feita “ quem és tu?” O que ouviremos aqui é a voz do rapaz dizendo: “eu ainda não sou ninguém...., mas daqui a cinquenta anos escreverei uma chalaça a descrever esta cena.              


Nota: Obrigado muito especial à Jacinta Bugalhão por ter desenterrado esta preciosidade, onde ela ainda não consta.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Mais de 50 000!


Este pequeno espaço de reflexão pessoal - Retórica bugalhónica, ultrapassou por estes dias a bonita cifra de 50 000 Visitantes, como se pode ver no contador aqui no lado direito. Um número redondo, que me dá orgulho alcançar. Embora este Blogue tenha cerca de 8 anos, estes números devem-se, sobretudo, aos últimos 4 anos, já que nos primeiros 4 anos, a coisa esteve em mera gestação. Foi a partir de Outubro de 2010 que aqui passei a publicar regularmente, após o abandono do outro projecto colectivo em que participava, o Fórum Marvão.

          Gráfico 1 – Evolução do número de visitantes da Retórica bugalhónica 2006 - 2014


Fonte: Estatísticas Blogger

Servindo-me este espaço como forma de comunicar com o mundo, sobre as minhas reflexões pessoais, onde a prioridade é dada às coisas públicas como a política, a economia, o desporto, a música, etc., quer a nível nacional ou muito virado para o meu concelho de Marvão, é sempre com satisfação que constatamos que temos algum eco do lado de lá. Aqui, esse eco, é-me dado pelas pessoas que por aqui passam.

Não tenho a aspiração de agradar a todos, não é da minha personalidade. Nunca fui de grandes consensos, bato-me por causas em que acredito, gosto de roturas, e creio, francamente, que são elas que ajudam à mudança. Sei por isso que muitos aqui vêm apenas para coscuvilhar, reprovar, ou discordar, mas este espaço recebe todos. Pena é que não venham à discussão, ao contraditório, com educação e civismo, quem sabe senão podíamos contribuir para o mundo “avançar”.

Ao longo destes 8 anos aqui publiquei 560 artigos, que mereceram 341 comentários dos visitantes. O pico de visitantes aconteceu em Outubro de 2012 com cerca de 3 700 visitantes, numa média de 120 visitantes por dia. Mas no compute geral a média ronda os 60 visitantes/dia, aos quais aqui deixo o meu reconhecimento por aqui virem.

Os 5 Posts mais visitados de sempre foram os seguintes:

- Coisas muito feias (1) – Dezembro de 2013


- Coisas muito feias (3) – Fevereiro de 2014



Oxalá por aqui ande mais 8 anos que, o tempo, nunca pára! E isto de projectos, o mais difícil não é criá-los, mas sim mantê-los. Oxalá a meta dos 100 mil visitantes possa ser alcançada, será sinal que a “casa” continua a ter interesse.

Obrigado a todos. Os que dizem “bom-dia”, e os que passam sem nada dizerem... 

sexta-feira, 18 de julho de 2014

IV Encontro da Família Bugalhão (19/7/2014)


“Quem não tiver história e tradições perde a sua identidade e, consequentemente, o seu espírito crítico e a sua auto-confiança ficarão diminuídos.” 

Amanhã dia 19 irá ter lugar o IV Encontro da Família Bugalhão, onde se irão juntar perto de uma centena de membros do clã. As raízes deste apelido têm origem no concelho de Marvão, e estendem-se no tempo por mais de 4 séculos.

Aqui fica o resumo da Árvore de Costados de 8 gerações da família. Mas já existem pelo menos mais 3 gerações, muitos dos quais se irão juntar amanhã.




De acordo com as minhas pesquisas, o 1º individuo a usar este apelido nasceu em 1754 (Reinava em Portugal D. João V), e foi baptizado com o nome de José, era filho de José António Toureiro (família oriunda de Alpalhão) e de Antónia Maria Serrana (família com origens no concelho da Guarda, freguesia de Arrifana). Durante os seus 57 anos de vida (faleceu em 1810), e como era habitual naqueles tempos, era conhecido por 3 nomes: José Gonçalves Serrano, José António Toureiro e José Gonçalves Bugalhão. Casou 2 vezes, primeiro com Catarina Maria (de quem teve pelo menos 6 filhos), e depois com Maria do Carmo (não tiveram filhos). Era Moleiro na aldeia da Ribeira da Ponte Velha, e já era descendente de família de Moleiros, como Moleiros continuaram a ser os seus descendentes até finais do século passado. Pertenceu à Irmandade dos Franciscanos. Apenas o seu filho João, nascido em 1783, deixou descendência (12 filhos).

O seu Testamento, lavrado 4 dias antes da sua morte, encontrei-o no Arquivo Distrital de Portalegre, e “reza” assim:

“Testamento de José Gonçalves Bugalham, moleiro morador na Ribeira deste termo.
Aprovado em 2 de Abril de 1810, conduzido e lavrado na forma do estilo.
Faleceu em 6 de Abril de 1810.”

J.M.J 2-4-1810

Em nome de Deus, Ámen. Este he o meu testamento que eu José Gonçalves Bugalham, viúvo que fiquei de Maria do Carmo, morador no moinho da Fonte Santa, faço para bem da minha alma e discargo de minha consciência.

Primeiramente encomendo minha alma a Deus, Nosso Senhor que a Criou e Remiu com o seu precioso sangue na árvore da Santa Cruz lhe peço me tome contas com misericórdia quando a minha alma se apresentar no Tribunal Divino e der contas de meus pecados, e o mesmo peço à Virgem Maria, minha mãe e senhora que interceda por mim a seu Bendito filho como peço ao Anjo da minha guarda e a todos os Santos e Santas da corte do Céu que roguem ao mesmo Senhor por mim.

Determino que sendo Deus servido e me leve da vida presente para eterna meu corpo seja envolto em um hábito de esmola de dois mil réis do Nosso Padre Sam Francisco e sepultado na minha freguesia, e me acompanharão de huma das casas da Vila até à sepultura sete Padres Clérigos e me dirá cada um uma missa de corpo presente, de esmola de cento e oitenta réis e me cantarão hum Ofício ofertado no dia do meu falecimento, aliás no primeiro desimpedido, e me acompanharão todas as Confrarias da Cruz pela esmola do costume santo, excepto daquelas de que sou Irmão. Item quero que se aplique pela minha Alma, um trintário de Missas e três trintários por meus encargos tendo-os aliás pela minha alma. Item quero que se apliquem por Alma de minha primeira mulher duas missas. Item quero que se apliquem por Alma de meu Pai duas missas e por Alma de minha Mãe outras duas e por Alma da minha Avó Maria Vaz duas Missas. Item quero que se apliquem aos Santos e Santas da minha devoção a cada um sua Missa, a saber: ao Anjo da minha guarda, outra à Senhora da Estrela, outra à Senhora da Guia, outra à Senhora da boa morte, outra pelas Almas do purgatório, outra a Sam Miguel, outra a Sam Pedro.

Item deixo o Curral da parte além da Ribeira, que comprei a Isabel da Silva de Moura ao meu filho Carlos. Item deixo o remanescente da minha terça a todos os meus filhos e filhas aos quais instituo por meus universais herdeiros.

Item: quero que José Fernandes Moleiro siga o meu testamento e lhe deixo pelo seu trabalho dois mil e quatrocentos réis e lhe peço faça pela minha Alma o que eu faria pela sua.

Declaro que meu genro Manuel Lopes está pago da legítima que pertenceu a sua mulher Teodora por morte da minha mulher.

Declaro que dei conta da legítima que pertenceu a minha filha Jacinta por morte da minha mulher doze mil réis o mais se lhe está devendo.

Declaro que me deve meu filho João dezoito mil réis que por ele tinha pago e lhe tinha emprestado e de um porco que lhe vendi.

E por esta forma dou este testamento por findo e acabado e quero que se cumpra como nele se contém por ser esta a minha última vontade a qual pedi ma fizesse Ezequiel Gração Roma de Marvão por eu não saber escrever o que eu fiz como pessoa particular e com ele assinei.

Moinho da Fonte Santa. 2 de Abril de 1810.

Seguem-se as assinaturas de Ezequiel Gração Roma; e do Testador José Gonçalves Bugalham (que assinou de cruz);”


Assim, amanhã, lá estaremos para recordar o nosso passado, viver o presente, e olhar o futuro...

terça-feira, 13 de maio de 2014

Memórias....


Para meu primo António, com quem partilhei boa parte da minha infância, e que me fez chegar esta “relíquia” perdida no tempo.



Em cima e ao fundo, a bancada superior apresenta um efeito de estar apinhada de adeptos fanáticos. O vento sopra de suão nas quinze bandeiras implantadas na pala, fazendo-as esvoaçar no sentido da esquerda para a direita. Embora só oito apareçam visíveis, as restantes também lá estavam. Sumiram-se. Quem sabe se devido à erosão do cenário por andar de feira em feira, se ao envelhecimento de meio século do retrato que agora contemplamos. Não faltarão aqueles que, ao observarem a imagem, porão em dúvida esta peremptória afirmação sobre o sentido do vento, já que, para os figurantes da imagem, sucede exactamente o contrário. É um pouco como no exame daquele estudante de anatomia, que quando questionado sobre de que lado, nos humanos, ficaria o fígado, este, sem que tivesse a mínima ideia, mas sabendo que tinha cinquenta por cento de hipóteses de acertar, resolveu arriscar que, o dito, ficava à esquerda! Mas perante a cara de contrariado do examinador, e vendo que, certamente, teria errado, se apressou a corrigir: bem, meu caro senhor, fica à esquerda de quem sai, mas, desde que o mundo é mundo, sempre esteve à direita de quem entra.

Com esta retórica, podemos quiçá, concluir talvez, que na vida, tudo tenha o seu quê de relatividade, e, na maioria das situações relatadas à distância, muitas das descrições, dependem sempre mais do narrador, do que da verdade dos factos ocorridos. Não nos faltam disso exemplos na história dos homens. No entanto, para que não restem dúvidas, pelo menos neste caso, encontrando-se o cenário usado encostado à parede lateral virada a nascente, da igreja de Santo António das Areias, por altura da feira anual de São Marcos em 1970, e que a sul se pode observar o imponente castelo de Marvão, sendo o vento, suão, não sendo crível que o retratista do “olha o passarinho”, se tenha posto no telhado da dita igreja, fácil será concluir, que o vento só poderia soprar no sentido Marvão – Areias, e dali ir assobiando, como tantas vezes faz, até aos confins dos montes hermínios maiores.

Na parte inferior, a imagem de uma bola, que está ao centro e parece desfrutar do prazer de repousar sobre um tapete de cor escura, possivelmente verde se o retrato fosse colorido. Tem aspecto de ser de boa qualidade, talvez de cautchu, o melhor que se dizia existir naqueles tempos, mas que a rapaziada da minha idade, apelidava de “cabo de chumbo”. Nada tinha a ver com as de trapo, borracha, ou de plástico, que eram as únicas a que tinham-mos acesso. Essas tais do cautchu só as víamos nas fotos dos jornais, ou no cartaz das rifas de cromos da bola do ti Zé Boto. Nunca percebi porque lhe chamávamos, “cabo de chumbo”? Se era um portuguesismo do cautchu, tal como hoje se usam inglesismos a torto e a direito; se era devido ao facto, dos fundos que amealhávamos, para tentar arrematar a totalidade das rifas finais, onde saía a tal bola de “cabo de chumbo”, ser proveniente das vendas ao ferro-velho de restos de tubos de chumbo usados nas canalizações da época. Mas infelizmente, nunca a verba nos chegou para tal, e assim, a dita, nunca passou de uma ilusão.

Mas o que sobressaia, verdadeiramente, no cartaz desse cenário na barraca dos feirantes das festas do São Marcos, era a imagem de duas criaturas humanas, que tinham no lugar da cabeça dois buracos. Parecia que interpretavam um qualquer bailado clássico, tal a harmonia que parecia existir em seus gestos. Não havia dúvidas que se tratavam de figuras masculinas. Não apenas por os membros inferiores serem muito musculados, ou porque no decote exagerado das camisolas se divisasse qualquer relevo identificativo de género feminino, mas sobretudo porque, naquela época, o futebol não era coisa para mulheres.

Seguindo a teoria em cima enunciada, isto é, o olhar na óptica do observador, a imagem da criatura da direita enverga uns calções brancos e uma camisola de cor escura, enquanto a da esquerda parece envergar uns calções pretos e uma camisola com barras horizontais cinzentas tendo ao peito a insígnia, sem dúvida de um leão. Na da direita é impossível decifrar o símbolo. No entanto, estas cores não passam de pura ilusão, com excepção dos brancos e dos pretos. Na realidade, aquilo que aqui apelidamos de cor escura era de um vermelho berrante como diz a canção, e, as barras cinzentas da outra eram, para continuar no mundo vegetal, de um verde alface vivo. Consequências de uma época, como apelidavam alguns, de um tempo cinzento, ou ainda, mais concretamente, por a arte ainda viver na era da tecnologia das sombras, e essas, como sabemos, sempre foram a pretas e brancas e cinzentas.

Mas deixemo-nos desde hábito tão português de nos fixarmos no supérfluo, e vamos ao essencial, que já vai longa a história, e, talvez a coisa não valha tanto. O que representava esse cartaz era um cenário imaginário de um jogo de pontapé na bola, e que fruto de mais um inglesismo, passou a ser denominado por estas paragens, de fut-e-bol. Os protagonistas são duas figuras que representam os dois grandes clubes rivais de Portugal por essa época: o da esquerda o Sporting e o da direita o Benfica. Tinham estas figuras no lugar do crânio, como já dissemos atrás, um buraco de formato oval, onde a rapaziada, envaidecida, enfiava a fronha, e assim podiam gabar-se aos incautos amigos: “olhe aqui eu quando jogava no Benfica, diziam os lampiões; ou no Sporting, reclamavam os do lado dos lagartos”.

Neste caso, os donos desses crânios eram dois rapazinhos: o João e o António, primos entre si, já que o pai de um e a mãe de outro tinham nascido irmãos na década de vinte do século passado, ali para os lados Pego Ferreiro, no seio de uma família de moleiros. Tinham nessa altura treze anos de idade. António fê-los nesse mesmo dia, João já levava 22 dias de avanço. Já ambos trabalhavam por conta de outrem: João na arte de fazer sapatos, António na arte de fazer pão, e foi com os proveitos que daí lhes advinham, que puderam pagar, cada um, os cinco mil reis que lhes custou o efígie que agora contemplamos.

A sua história comum havia começado por alturas do estio de 1956, quando Luísa, futura mãe de João, sentindo falta das regras já há mais de quinze dias, demandou a casa de sua cunhada Emília, futura mãe de António, perguntando-lhe se esta não conheceria qualquer coisa que repusesse as coisas no sítio, mas Emília, tão embaraçada quanto Luísa, responder-lhe-ia apoquentada: ai mana, eu acho que estou na mesma! E sendo tais aqueles tempos, que foi assim que as duas, nove meses depois, e com um intervalo de três semanas, viriam a dar à luz os dois cromos que aqui contemplamos.          

Viveram os dois primos uma infância comum até aos cinco anos de idade, como se de irmãos gémeos se tratassem, já que suas casas na Ribeira da Ponte Velha, distanciavam poucas centenas de metros: a de João no moinho do Balcão, a de António, um pouco mais a sul, no sítio da Carapeta. O seu percurso de vida, durante este período, foi idêntico ao de tantas outras crianças daquele tempo que cresciam em liberdade pelos campos, carecendo e reclamando de seus progenitores, pouco mais que o satisfazer das necessidades de alimentação, e de alguma escassa higiene já que o rio estava mesmo ali à mão. Nem faltou a estes dois, por volta dos quatro anos de idade, o seu episódio bíblico de irmãos desavindos, que segundo a mãe de João, só não teve o mesmo desenlace, porque ela terá chegado a tempo de o evitar, quando um certo dia António, sempre mais matulão e pujante, tendo já seu primo João pequenino sob seu corpo, se preparava de calhau empunhado, para, possivelmente, lhe dar o destino que Caim terá dado a Abel. Sempre algumas mães chegam na altura certa. Ao contrário daquela mãe da bíblia, que parece, quando chegou, já os correligionários de seu filho lhe haviam dado a morte. Coisas do mundo.

Felizmente que não foi o caso deste nosso João, que aqui vemos, por altura da feira do São Marcos, retratado com corpo emprestado de um «Peres ou um Lourenço», equipando “à Sporting”, que nesse ano haveria de ser campeão nacional. Certamente por isso, nem se importou de ceder a imagem representativa do seu clube do coração, “o glorioso”, a seu primo António, que aqui aparece numa pose de fazer inveja a «Humberto ou Toni», os craques benfiquistas da época, mas que nesse ano, quem sabe se devido a este "reforço", tiveram que se contentar com o segundo lugar do campeonato.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Paixões...





António Lobo Antunes disse um dia, que a felicidade para ele “... era estar no Estádio da Luz e festejar um golo do Benfica!". Certamente que o mesmo se pode aplicar a simpatizantes de outros clubes. E se tal se verifica apenas no “festejar”, o que dirão aqueles que, num ou noutro momento, possam ser os actores da construção, marcação e comemoração do culminar dessa actividade humana dos nossos dias, que é o futebol.

As imagens que hoje aqui deixo, para além do espectacular vídeo supra,  são as de um grupo de quase uma centena de pessoas que, ligadas por essa paixão do pontapé na bola, se reuniram em SA das Areias, em 10 Domingos pela manhã, e disputaram com prazer e certamente alguma satisfação, 30 partidas da modalidade de futsal. Convém ainda esclarecer que, por ali não estiveram imitadores de um qualquer Ricardinho (o melhor jogador português de todos os tempos), mas apenas e só, um grupo de rapazes e homens não federados na modalidade, e com uma só finalidade: o prazer pelo prazer de praticar desporto.

Estão pois de parabéns todos os participantes, os árbitros e os organizadores deste Torneio, e que esta iniciativa se repita mais vezes. Esta foi exemplar em todos os aspectos.

Por mim, como já aqui expliquei anteriormente, foi certamente o último Torneio em que participei com “jogador”. A idade é assim, não perdoa. E como dizia o outro, há uma idade para tudo!!!! Tive no entanto a sorte de integrar uma equipa maravilhosa, e que acabou por ser a vencedora do Torneio, com camaradas que tiveram um comportamento exemplar, aos quais aqui deixo o meu muito OBRIGADO por terem contribuído, para mim, por mais este momento da tal FELICIDADE.

Aqui ficam para memória futura algumas imagens. Atente-se no rosto dos participantes, e vejam lá se o Lobo Antunes não tinha razão!


As Equipas:



Equipa F&A Seguros

Equipa da CM de Marvão


Equipa dos "Cenouras"


Equipa da JF de Santa Maria de Marvão


Equipa "Os Latinos"


Equipa "Os duros de domingo"


Os árbitros: Ricardo e Bruno


Os Cronometristas: Daniel Barradas e Carlos Amador


A Organização: CM de Marvão


Momentos:





Entrega de Prémios:




Classificação Final






Equipa mais disciplinada: "Os Latinos"


Melhor marcador: Luís Costa (CM de Marvão)


Guarda Redes "menos batido": Rui Canuto (F&A Seguros)


1º Classificado: F&A Seguros


2º Classificado: CM de Marvão


3º Classificado: "Os Cenouras"


4º Classificado: JF de Santa Maria de Marvão


5º Classificado: "Os Latinos"


6º Classificado: "Os duros de domingo"


O convívio final:



segunda-feira, 31 de março de 2014

Campeões! Simplesmente...


Há cerca de 2 meses numa tertúlia futeboleira, falou-se que iria realizar-se um Torneio de Futsal (no meu tempo dizia-se futebol de salão), para não federados, em Santo António das Areias, organizado pela CM de Marvão.



F&A Seguros - Em cima: Nuno Macedo, Paulo David, Rui Canuto, Luís Barreto. Em baixo: Miguelito, João Carlos, Zé Domingos, Artur Costa e João Bugalhão. Faltam na foto Luís Reis e Luís Miguel.



O futebol sempre foi uma das minhas grandes paixões em todas as suas vertentes, sobretudo a sua prática. Não me tendo proporcionado a vida, a oportunidade de uma grande aprendizagem da sua praxis, já que a minha vida entre os 12 e os 20 anos foi trabalhar 9 horas por dia e estudar mais 5 horas nocturnas, não me restando assim tempo para a aprendizagem da modalidade que eu tanto gostava. No entanto, nesse tempo, era tão grande a paixão pela coisa, que enquanto trabalhava, e para matar o vício, cheguei a idealizar, mentalmente, jogos entre equipas constituídas por amigos meus, em que eu, durante os 90 minutos era, simultaneamente, treinador, jogador, e ainda realizava os relatos do jogo. Só quando cheguei aos 20 anos, a vida me proporcionou o prazer de voltar aos pontapés na bola, mas entretanto, a pouca habilidade inata tinha desaparecido, ficando apenas a vontade e o gosto, mas como diz o povo, nunca haveria de ser grande espingarda na arte.

Depois, durante 25 anos, fui tudo o que se possa ser na prática desta modalidade: jogador (com pobre carreira), massagista, treinador, psicólogo, educador, empresário, marcador do campo, roupeiro, motorista, tesoureiro, secretário, presidente de direcção, presidente de assembleia geral, e tudo o que se possa imaginar dentro de um clube de pequenas dimensões como era, e é, o Arenense, entrado sempre pela porta pequena. Só não sei se alguma vez saí pela porta grande, acho que não. Só sei que para mim foi compensador, uma grande experiência de vida. Oxalá que o tenha sido, também, para muitos daqueles que viveram comigo esses tempos.

Foi assim que quando ouvi falar desta iniciativa, e quando a minha idade já não vai para nova, me disse a mim próprio: - João, aqui tens a última oportunidade de fazeres umas das coisas que sempre te apaixonou, e se não for agora, nunca mais o será! E assim foi. Em 5 minutos convidei meia dúzia de amigos, a que mais tarde se juntaram mais 2 ou três, e aí fomos nós. Só que, infelizmente, e enquanto “jogador”, rapidamente concluí que a idade não perdoa, e á segunda tentativa, antes que saísse dali para a faca, o melhor seria sentar o cuzinho no mocho, que isso de correr atrás do esférico já foi.

Fora este pormenor, sem qualquer importância, o grupo reunido foi excepcional, se é que este adjectivo pode qualificar a equipa da F&A Seguros, que a uma jornada do fim é a vencedora deste Torneio.

Não vou dizer que o resultado competitivo não é importante, claro que é, pelo menos faz bem ao ego. Mas o mais importante para mim, para além da coordenação que fui fazendo do grupo, foi a humildade, a camaradagem, o saber estar, o respeito que tivemos de todas as equipas e da organização, e, o chegar ao fim de alguns jogos e recebermos os parabéns da arbitragem por terminarem sem qualquer falta.

Da minha parte, um obrigado a todos por mais esta vivência e experiência de vida.      



quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Memórias do dia 22 de Janeiro de 1974: 40 anos depois...

Dedico este Post ao meu sobrinho Luís Bugalhão. Para memória futura:

CAPÍTULO I – Escrito em Janeiro de 2010

Recorde-me hoje, com algum detalhe, e passados 36 anos, do dia 22 de Janeiro de 1974. Portugal, nesse período, era governado pelo Estado Novo, que se caracterizava por ser um regime autoritário, conservador, nacionalista, corporativista, de inspiração fascista, anti-parlamentarista, anti-comunista, e colonialista. O regime tinha a sua própria estrutura de Estado, e um aparelho repressivo (PIDE, colónias penais para presos políticos, etc.), característico dos chamados Estados policiais, apoiando-se na censura, nas organizações paramilitares: Legião Portuguesa, e as suas organizações juvenis (Mocidade Portuguesa), no culto do "Chefe" autoritário. Encontrava-se ainda envolvido numa Guerra Colonial desde 1961, contra os Movimentos de Libertação das Colónias Africanas, para onde enviava, a combater, os seus jovens na flor da idade (com 20 anos), para matarem, e muitos aí morrerem.

A nível laboral, o país era dominado pelas Corporações, que tinham o seu próprio Ministério no Governo. As relações entre os trabalhadores e patrões eram, basicamente, reguladas pelo poder patronal, com uma fraca contratação colectiva.O movimento sindical era dominado por essas mesmas Corporações, que aí se faziam representar por trabalhadores por si indicados, existindo, no entanto, por essa data, algumas excepções em sindicatos onde os trabalhadores conseguiam colocar os seus representantes, como era o caso dos Metalúrgicos. A palavra “GREVE” era vocábulo proibido, e amargava na boca daqueles que a pronunciavam, pois a promessa de passarem 6 meses de “férias” em Caxias, no Aljube, ou em Peniche, era quase garantida.

O desemprego não existia desde meados dos anos sessenta. Estávamos em plena “era dourada”, da revolução industrial portuguesa. Novos e velhos (que nessa época eram poucos), homens e mulheres, todos os dias arranjavam trabalho, e/ou mudavam de patrão, perante aquele que lhe oferecesse melhores condições e melhor recompensa. No entanto, a partir de 1972, e após a primeira “crise do petróleo”, que as dificuldades começaram a aumentar, e, no início do ano de 1974, só com um poder reivindicativo forte, ou com um “patrão bom”, se conseguia que o patronato lá fosse abrindo os cordões à bolsa, com um pequeno aumento salarial, para fazer face ao aumento do custo de vida e inflação.

Por essa altura, eu era um moço de 16 anos, isto é, um adolescente, como hoje são designados os jovens dessa idade, mas já carregava comigo 5 anos de trabalho como assalariado. Primeiro, entre 1969 e 1971 na empresa Celtex em Santo António das Areias; e a partir de Julho de 1971, como Aprendiz de Serralheiro Civil numa empresa de metalomecânica no concelho de Sintra (para onde tinha “emigrado” para poder estudar), de seu nome: Cacém Industrial Metalúrgico.

Era usual, nessa empresa, que em todos os anos em Maio, o patrão Neves procedesse a alguns aumentos de ordenados, consoante o nosso comportamento individual ao longo do ano. No meu caso, foi assim que, em 1972 passei de 30 para 35 escudos diários (6 dias por semana, num total de 48 horas semanais), e no ano seguinte, tinha progredido para uma quantia de 43 escudos por jornada diária de 8 horas.

Mas o ano de 1973 já não havia sido fácil para a economia portuguesa. A inflação tinha disparado como há muito não acontecia, e começou a sussurrar-se, em pequenos grupos, que o melhor seria que o patrão Neves fizesse a tradicional actualização salarial logo do mês de Janeiro, para ver se a malta conseguia aguentar-se, e usufruir da possibilidade de ter mais “algum”, daquele com que se compravam e compram os “melões” bem como outros bens essenciais, e que por essa altura eram pouco mais que o pão, o leite e o vinho.

Só que, contactado o “sr. engenheiro”, pelos operários mais velhos da casa (quais delegados sindicais ou comissões de trabalhadores, que ainda estavam para nascer), este mandou dizer, e nada bem disposto com a ideia: “que nem pensar, nem em Janeiro, e o mais que provável, era que nem em Maio, porque a vida estava difícil para todos e, os patrões, também não andavam propriamente a nadar em dinheiro”.

Este recado de negação absoluta, diga-se desde já, não caiu nada bem no peito daqueles cerca de duzentos homens e rapazes, oxidados por fora e por dentro, à reivindicação, que, na nossa perspectiva, nos parecia mais que justa, e, sem se saber muito bem como, a palavra interditada GREVE, começou a circular de boca em boca.

Não sei ainda, até aos dias de hoje, a génese de tal devaneio de andar-se a pedir aumentos e a importunar os tão "bons" dos patrões. Havia quem dissesse, mais tarde, que a iniciativa havia surgido do nada, e como tantas vezes acontece: um homem lembrar-se no seu âmago, de uma sensação de injustiça, de uma paixão de causas, de um sentimento reprimido e, zás, vamos a isto que se faz tarde. Mas, sempre houve aqueles que, afiançavam, que por detrás de tal génese estavam as tais “lebres”, que nos fala o Saramago, em Levantado do Chão.

O facto é que, pelas 10 horas, do dia 22 de Janeiro, e quatro meses antes do futuro Dia da Liberdade, e, da GREVE se tornar uma coisa banal e de arremesso político partidário,  os cerca de 200 proletários da CIM, fizeram ali naqueles pavilhões de trabalho e suor, um silêncio sepulcral naquele arraial de “malhar ferro”, e, mandaram dizer ao patrão Neves, que a partir daquela hora, estavam em greve, até que ele decidisse proceder à justa actualização salarial.

Eu era um deles e, claro, também aderi…



Capítulo II – Escrito em Janeiro de 2011

Parece que foi ontem, e já passou um ano desde que aqui vos contei a primeira parte, desta minha aventura de 22 de Janeiro de 1974. É assim o tempo, esse maganão que nunca pára, avançando sempre, sem contemplações, indiferente ao bom ou mau (tempo) de acordo com a perspectiva de cada um.

Quando penso nesta questão do “tempo”, ou como ele passa apressadamente, vem-me sempre à memória aquela alusão de Saramago, sobre a sua avó materna, de nome Josefa Caixinha, feita no discurso de recepção do Prémio Nobel da Literatura, quando este recordava estas suas palavras:

“… o mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada...” 

Mas vamos em frente (no tempo), que o que aqui quero partilhar convosco, não é propriamente literatura, e muito menos poesia, mas antes um acontecimento único e que me marcou para a vida. Para uma actualização integral, se já caiu no vosso esquecimento, recomendo que recueis há um ano atrás e, carregando ali, na “caixinha” (que não é a avó do José) do lado direito, no ano de 2010, mês Janeiro, do Blogue Retórica bugalhónica, lá hão-de encontrar um artigo, com o mesmo título do de agora, para poderem fazer o enquadramento da história.

A Greve, naquele tempo, era para a maioria de nós, uma coisa assim como o longínquo ano 2000, que as profecias anunciavam ser, o ano do fim do mundo, algo que se ouvia murmurar, mas que, certamente, não existiria. Estar, num impulso, metido no seu seio, ficava-se assim como uma criança que vai ao “comboio fantasma” pela primeira vez, mesmo que acompanhada pelos pais.

Se eu sabia, por nessa altura, que era proibido fazer greve? Claro que sabia. Se sabia que existia a policia política PIDE, que tudo controlava? Claro que sim. Se sabia que todos os dias iam parar a Caxias, Aljube ou Peniche, pessoas por apenas contestarem a ordem vigente? Sem dúvida. Se sabia que as pessoas que aí eram aprisionadas, eram vilmente torturadas, às vezes até à morte? Claro que não podia ignorar: via, ouvia e lia. No entanto, para mim, jovem aventureiro de 16 anos, entrei nessa “estação fantasma”, sem medir prós ou contras, apenas movido por aquilo que me parecia ser o mais elementar sentido de justiça: lutar pela melhoria de condições de vida. Isso bastava-me, depois logo se veria.

Durante as primeiras duas horas, isto é, até ao meio-dia desse dia 22 de Janeiro, hora em que íamos almoçar, nada sucedeu. Apenas algumas conversas fúteis sobre a vida, e que no meu caso específico, certamente, seria alguma combinação com o camarada do lado, sobre a hora e o local do bailarico do próximo fim-de-semana. Ou, lembro-me lá, uma qualquer discussão “futeboleira” sobre rivalidades de benfiquismo/sportinguismo, já que os tripeiros naquelas paragens, para além de raros, naquela tempo ainda não contavam para o campeonato.

Após almoço ligeiro, transportado em “lancheira”, comido ao ar livre, sentado numa qualquer pedra mais saliente, ingerido directamente da dupla marmita de alumínio, habitada num compartimento pela sopa de legumes, e no outro, por alguns restos de guisado da noite anterior acompanhado de pequenas sopas de carcaça, lá regressámos ao silêncio cavernoso do posto de trabalho, que mais acertado seria, chamar-se naquele dia: posto de greve. Passava pouco das 14 horas, quando à entrada do pavilhão principal da oficina, surgiu, repentinamente, o patrão Neves da Silva, na sua figura altiva, agasalhado com o seu impecável sobretudo preto, acompanhado do “encarregado-geral”, e do chamado “guarda-livros”.

Visto de longe, a cerca de cinquenta metros em linha recta, via-o movimentar-se bruscamente dirigindo-se, individualmente, a cada um dos meus camaradas operários metalúrgicos, que ocupavam o seu local de greve. Dirigia-lhes algumas palavras, em voz bastante alta e alterada, mas que, pela distância a que estavam de mim, me era impossível enxergar. Após o breve monólogo que travava com cada um, e como formigas num carreiro, os contactados grevistas, sem excepção, lá se iam dirigindo para a porta da rua.

Quando chegou a minha vez, senti-me como que a enfrentar um pelotão de fuzilamento, embora a dúvida do conteúdo do monólogo com a entidade patronal, já se haver esfumado, pois já ouvira bem claro, o que se passara com aqueles que mais próximos estavam de mim. E assim, foi sem qualquer surpresa, que ouvi da boca do senhor Engenheiro Neves, a pergunta que repetia pela quinquagésima vez:

- O “senhor” quer ou não trabalhar?

“Ainda passou pela cabeça argumentar que Sim, que queria! Que gostava muito daquele trabalho, e precisava dele como do pão para a boca! Mas, que o senhor engenheiro fosse criterioso, pois bem sabia, que o custo da vida estava pelas horas da morte, que as rendas de casa tinha aumentado, até a electricidade em casa já andava a ser substituída por velas; o comboio, já custava seis escudos do Cacém para Lisboa, e até pela “bica” já custava vinte e cinco tostões; ir ao cinema? Só no “piolho” aqui da terra! Saiba, o senhor engenheiro, que a malta mata-se aqui a trabalhar, a dar o litro dez horas por dia; eu, uma criança como pode ver e que ainda devia estar na escola, pela manhã até já cuspo ferrugem deste maldito óxido de ferro e, à noite, só oiço “grilos” a cantar nas orelhas; os maganos daqueles sarracenos não param de aumentar o preço do petróleo, e como o senhor sabe, quando aumenta o crude, aumenta tudo! O patrão bem sabe, que fomos nós, com o nosso trabalho, que fizemos esta média empresa, e não se esqueça que, ainda há três anos, funcionava num “vão de escada”. E já agora, senhor engenheiro, o que era isso para si de, apenas mais dez escudos por dia a cada um de nós? Etc., etc.….”

Mas não. Baixei a cabeça, por ser a primeira vez que estava tão de perto com tamanha eminência, não prenunciei uma só palavra, e lá segui no formigueiro, para a porta de saída. Evitando assim, ao Sr. Neves da Silva, a palavra por si mais repetida naquele dia: RUA!


Capítulo III – Escrito em Janeiro de 2012

Como já havíamos revelado no Capítulo anterior, esta «média empresa CIM», não passava há três anos atrás, de uma pequena oficina familiar de vão de escada, com meia dúzia de operários que, praticamente, executavam apenas obra miúda, tal como: portas, portões e janelas em ferro, para protecção das propriedades privadas das redondezas. Havia sido concebida e criada “a meias” entre dois sócios, em que um, à boa maneira portuguesa, se havia desenvencilhado do segundo, assim que a coisa começou a prosperar e dar rendimentos.

As instalações de produção eram constituídas por dois grandes pavilhões contíguos que, embora iguais no seu formato parecendo irmãos, poder-se-ia antes dizer, que um havia parido o outro, sendo assim um o principal e o outro o secundário. Ali eram construídas toda a gama de maquinaria para a Construção Civil desde gruas a betoneiras, até silos e cofragens. Ali trabalhavam mais de duzentos operários entre traçadores, cortadores, torneiros, maçariqueiros, ferramenteiros, desempenadores, serralheiros civis e mecânicos, soldadores, serventes para toda a obra, montadores, electricistas, fresadores, aprendizes, praticantes de tudo e de nada, controladores de produção e qualidade, chefes de secção e gerais, etc., etc. Digamos que, de grosso modo, ferro era connosco.

Apesar desta vocação institucional pelo metal, ainda me lembro como se fosse hoje do episódio de praxe do “martelo de desempenar borracha”, a que fui submetido, quando estava no segundo dia de tirocínio da arte do malhar ferro, e ter chegado à minha beira, um daqueles já experimentados “mestres ratinhos” e ter-me ordenado: «- Ò chaval, vai além à Ferramentaria, levantar um martelo de desempenar borracha! E vai num pé e vem no outro, senão tens que experimentar a densidade da verga de aço nessas nalgas, que a tenho aqui guardada para os molengões alentejanos...».

Tendo eu, nessa altura, apenas catorze anitos, pensava já não ser dos mais tolos, e um “martelo de desempenar borracha”, não lembrava ao diabo! Mas, quem se atrevia a desobedecer nessa época a um “mestre”? E foi assim, com ar desconfiado mas sem pestanejar, que lá fui em demanda da peculiar ferramenta de endireitar a borracha. Claro que, ao meu pedido envergonhado, o ferramenteiro, me cravou um volumoso “embrulho” com mais de vinte quilos, que lá tinha sempre pronto a entregar aos incultos e novatos na arte de malhar o ferro.

Sobre a data desta pequena praxe, já haviam passado mais de dois anos, quando ocorreram os acontecimentos desse dia 22 de Janeiro de 1974. A cena que relatámos anteriormente de conflito entre o representante do capital e o jovem proletário de 16 anos que eu era, repetiu-se nessa manhã, cerca de duas centenas de vezes. Tantas quanto o número de operários que ali trabalhavam, e que, naquele dia, por questões de reivindicativa justiça salarial, resolveram não o fazer.

Sendo o pavilhão secundário como que filho do principal, ali labutavam os proletários admitidos mais recentemente, os mais novos, quer na empresa quer em idade; ficando o pavilhão principal para aqueles trabalhadores mais antigos na casa, alguns deles oriundos da oficina mãe do vão de escada, e que mantinham ainda com o patronato uma espécie de relação de amizade pelo caminho que haviam percorrido em comum, quando ainda uns não eram mandantes e, os outros ainda não eram mandados. Esta premissa viria a influenciar, acentuadamente, todo o desenrolar dos acontecimentos daquele dia.

Não admira pois que no pavilhão secundário, o primeiro a ser inquirido pela eminência patronal, sobre se queriam ou não trabalhar, a negação de iniciar labuta pelos abordados, tenha tido uma adesão praticamente total; já no denominado pavilhão principal, sem que no secundário se percebesse porquê e, perante a pergunta do engenhocas, a resposta mais frequente foi, em vez do esperado não, ter-se começado a ouvir, com alguma frequência e intensidade, as rebarbadoras a chiar e os martelos a castigar o ferroso metal.

Estava assim encetado o princípio estratégico de dividir para reinar, e a partir dali, as “formigas” que haviam abandonado a caverna, teriam de lutar por si. Embora, se viessem a sair vitoriosas, os provimentos seriam para todo o formigueiro. O costume!

Foi assim que, enquanto metade daqueles que haviam iniciado a peleja já ajustavam moldes nas chapas, faziam deslizar com maestria o punção ou escopro batidos pelo martelo, riscavam com o traçador de ponta de diamante, serravam bocados de ferro, com as guilhotinas, cortavam as chapas com violência, assentavam esqueletos de longarinas e pivôs nos gabaritos, soldavam a eléctrodo incandescente tirantes e degraus, ensaiavam lanças e contra-lanças, faziam rolar as calandras e tornos mecânicos, apertavam grampos, moldavam curvas nas bigornas, desempenavam cantoneiras, empilhavam vigas, faziam expirar os foles das forjas, acendiam maçaricos de oxigénio e gás metano, faziam furos de berbequim, rebarbavam chanfres para soldaduras, acertavam esquadrias, faziam deslizar pontes rolantes, ou experimentavam croquis...

Nós, aqueles que tinham recebido e acatado a ordem de expulsão senhorial, deparámo-nos, subitamente, num grupo com cerca de uma apenas uma centena de embotados à porta de entrada do pavilhão secundário, esperando o regresso do soberano engenheiro, dispostos a tudo, para tentarmos em grupo, aquilo que não havíamos logrado individualmente.

Neves da Silva, não se fez esperar muito. Mesmo que nos quisesse fugir, aquela que era a porta de entrada, também era a única porta de saída e, janelas se existiam, ficavam demasiado altas para serem escaladas por sua excelência. Mostrando alguma coragem, aproximou-se do hostil grupo de 100 enferrujados que, rapidamente, o rodearam, e uma conversação estranhamente pacífica e respeitosa iniciou-se: Nós: alegando da necessidade do aumento salarial para fazer face ao aumento do custo de vida; ele: contra-argumentando tal impossibilidade, com a finalidade de manter a empresa viável. O trivial nestas coisas.

De considerando em considerando, de fundamento em fundamento, num diálogo de negociação de surdos, e sem que qualquer das partes mostrasse vontade de ceder, passadas que foram duas horas a malhar ferro de língua, a entidade patronal lá anuiu a que os enferrujados poderiam voltar no próximo dia aos seus postos de trabalho, se assim o quisessem, pois ele acedia a anular a ordem de despedimento. Quanto à reivindicação de aumento salarial? Essa, nem em Maio como vinha sendo tradição, quanto mais em Janeiro. Sentença de patrão!

Não proliferava por essa época a comunicação social marialva e de papagaios de hoje, senão não faltariam comentários e declarações obstinadas, sobretudos para as televisões, de cada uma das partes a clamar por vitória, argumentado os representantes de uns:

“... que tinha este processo de luta reivindicativa sido um êxito, pois havia-se conseguido uma adesão em números da paralisação de cem por cento por parte dos trabalhadores, que apesar de metade deles terem chegado a ser despedidos, o patronato teve que ceder e proceder à sua reintegração imediata, isto para além de ter sido um acto heróico, possivelmente até histórico, isto de fazer uma greve num regime totalitário que a proibia e, logo, o governo, como sempre ao lado do capital, também havia saído derrotado e, quem sabe, até ferido de morte”;

E pela outra parte, não deixaria de aparecer o Sr. Engenheiro acompanhado, certamente, por três ou quatro capangas de gabardina cinzenta, que aliás o acompanharam sempre durante a sua deambulação pelos pavilhões fabris, defendendo que:

“...mais uma vez a inegável responsabilidade desta administração, apoiada sempre por suas excelências as autoridades corporativas em representação do patriótico governo da nação, haviam levado a bom porto, e debelado mais uma pequena rebelião, em que, não mais de meia dúzia de trabalhadores metalúrgicos, certamente mal aconselhados, ou mesmo manipulados por forças ocultas, quiçá estrangeiras, contrárias aos reais interesses da nação portuguesa, e adversas à pacífica convivência existente entre patrões e seus empregados tão imbuídos no desenvolvimento do país no difícil momento que atravessamos face à difícil conjuntura externa, etc., etc., etc....”

Em conclusão: “lançados os foguetes, feitas as festas, alguém terá sempre de apanhar as canas”; ou ainda, mais apropriado para este caso, “depois de levantada a mesa, sempre alguém fica com as barbas untadas”. E foi o que veio acontecer.

Apesar de no dia seguinte todos termos voltado ao trabalho, uns mais envergonhados, outros menos, não podíamos ignorar que em termos de resultados, exceptuando a perda da produção de um dia de malhar no ferro por parte do patronato, os grandes perdedores do feito épico, haviam sido como de costume, os trabalhadores, que não viram concretizadas nenhuma das suas reivindicações, salvo o facto de, metade deles gozar o privilégio de terem passado três quartéis do vigésimo segundo dia do mês de Janeiro, do ano da revolução dos cravos de verga direita, que é o mesmo que dizer sem vergar a mola.

Nos quinze dias subsequentes nada aconteceu, e tudo parecia navegar num mar de rosas entre aquelas oito paredes. No entanto, as consequências tardias desta aventura não se fizeram esperar, já que, rapidamente, se concluiu que as tais figuras funestas de gabardina bege ou cinzenta, não tinham andado por ali apenas para se inteirarem do estado da arte de malhar no ferro, ou a medir os decibéis dessa acção que tanto agrediam as expostas membranas timpânicas! Assim, e quase todas as manhãs seguintes, e, sucessivamente, lá dávamos pela falta de mais um dos nossos! E, de sussurro em sussurro, lá se passava a notícia: “ a pide foi buscá-lo a casa esta noite e levaram-no para Caxias! Parece que pertencia ao partido dos comunistas e que esteve na génese da paralisação do outro dia. ”

Assim, em cada noite que chegava, eu, esperava a minha vez. Apesar de não ter qualquer ligação a esse tal partido, ou qualquer outro, bem sabia que, apesar da minha tenra idade, tinha sido um dos mais activos argumentistas na revolta dos enferrujados.

Ditosamente, a madrugada de 25 de Abril ocorreu, e, sem que eu soubesse porquê, a minha vez de passar umas “férias” na casa junto praia do cagalhão nunca chegou!

Por tudo isto, o dia 22 de Janeiro ficou gravado na minha memória.